“Um filme de que gosto” … Falcão de Malta

Falcão de Malta de John Huston

“Um filme de que gosto” … Falcão de Malta de John Huston

Quando era adolescente, na mesa de cabeceira existia uma pilha de livros (confesso que na época lia muito mais do que agora). Misturados com livros que eram moda e que davam imenso jeito para conversas de café (sim…lia Sartre, Camus, Kafka) estavam os livros de pura diversão, coleções de ficção científica e policiais.

Um dos livros que mais gostei foi o Falcão de Malta do Dashiell Hammett e que mais tarde percebi haver uma reconhecida razão para gostar, era só o livro que iniciou o género de romance policial.

Mais tarde, numa das sessões de fim de semana no cinema Quarteto (pois… sou desse tempo) fui surpreendido com a exibição do Falcão de Malta do John Huston que era igualmente inovador no estilo cinematográfico “noir”.

A Warner Brothers em 1941 entrega a tarefa de escrever e realizar o Falcão de Malta a um jovem desconhecido que dava pelo nome de John Huston para seu primeiro filme. Em boa hora o fizeram porque fizeram história do cinema.

Huston não se afastou do livro de Hammett, mantendo o essencial e tornando a realização numa mudança de paradigma no cinema americano. As influências de John Houston contrastavam com o “sonho americano”, continham o arrojo de princípios freudianos, Jean Paul Sartre, filmagens no exterior, colocar o cinema nas ruas, nos clubes e noutros ambientes obscuros e fantasmáticos (gosto desta palavra), muito pela visão dos realizadores alemães exilados da Alemanha Nazi.

O anti-herói que sustenta a intriga, a mulher fatal, morte, crime, infidelidade, violência, traição, ciúme numa teia de conflitos que conduzem a situações extremas e desesperadas.

Personagens principais complexas, com passado duvidoso, e papéis secundários  ricos e autónomos em ruptura com as linhas do cinema tradicional. Exemplo de Sidney Greenstreet que foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário por esta interpretação.

Assim nascia o primeiro grande filme “Noir” onde o negro, a escuridão, o lado obscuro do crime e da paixão imperam. O Falcão de Malta foi considerado um dos melhores filmes de sempre.

Vai começar a sessão… Que saudades sinto do “Ding-Dong” que nos alertava para o início da sessão ao intervalo no cinema Monumental (desculpem, coisas da idade).

Comecemos pelo princípio (perdoem o pleonasmo), a banda sonora indicia desde cedo a trama misteriosa que nos espera. A descrição da estatueta do Falcão de Malta, foi de certeza, inspiração para o início da Guerra das Estrelas com as frases a deslizarem no ecrã e aquela música densa que nos alimenta a curiosidade.

A banda sonora deste filme tem um papel determinante, sem exageros desnecessários, vai colorindo cada cena, inquietando o espetador e ajudando à compreensão do que se vai desenrolando.

Poderá parecer que os personagens são exagerados nos gestos e nas expressões, tornando-se até caricatos aqui e ali. Não nos podemos esquecer que o cinema sonoro estava no início, e a rigidez dos atores não era por mediocridade, mas sim por que na época ainda se estava a dar os primeiros passos nas técnicas do cinema sonoro. Exemplo é Humphrey Bogart, algo rígido na atuação, mas que no ano seguinte foi indicado para Óscar de Melhor Ator em Casablanca, filme que tem muito de “noir” e influenciado por Falcão de Malta (também havia um Sam…), constando da minha lista de Melhores Filmes de Sempre.

Rigor nos detalhes, o fundo das cenas é escuro realçando apenas o personagem e os seus diálogos, sem distrações para o espetador. Grandes planos inovadores e que ainda hoje fazem parte das boas práticas do cinema, a importância dos objetos para a história.

Em cada cena a trama se adensa, a curiosidade pelo que se vai passar a seguir, o espetador preso à história, a música que acompanha cada momento realçando o objetivo de cada cena.

O detetive Sam Spade não nos desilude no cinema e, tal como no livro, consegue prender a atenção até final. O filme com esta história, esta realização e a banda sonora brilhante, só podemos dizer…Bravo!

Chamo a atenção para a cena final, o encerrar da trama, os culpados punidos, Sam continua em frente, tudo simbolizado no fecho da porta de grades de um elevador. Genial.

Se está a ler esta linha, resistiu a mudar de página e ficou com vontade de passar algum tempo a ler ou, melhor ainda, a ver o Falcão de Malta. Como recompensa pela sua paciência, deixo aqui o link para que possa ver online o Falcão de Malta legendado em português.

https://vimeo.com/366242933

Espero que goste.

Arnaldo Cordeiro

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top