Desassossego na CPE – anos 70

CPE em meados de 70

Nos tempos iniciais do “25 Abril”, organizações ”militantes” (havia-as de todas cores : verdes, azuis, rosa, furta-cores que ficavam vermelhas se essa fosse a cor do ambiente e vermelhas ver­dadeiras, de cor fixa) enviavam membros da sua confiança “monitorar” o que se passava nas grandes empresas nacionais e para nelas intervirem segundo orientações «superiores».

Nos tempos constitucionais, já de luta pelo poder entre as duas grandes correntes políticas rivais essas correntes mantinham, como antes, vários membros da sua confiança discretamente “con­trolando” o que se passava nessas empresas.

A CPE, como grande empresa, não escapava a essa saga.

Adicionalmente havia alguém, externo ao País, que receava que, nessa luta pelo poder, acabasse por vencer a corrente que não lhe agradava mesmo nada.

E o seu representante passou a patrocinar, de forma discreta mas eficaz, a corrente que se pre­tendia contracorrente da outra que ele detestava.

Escolhera o que, do seu ponto de vista, era a “menos pior” e mais facilmente controlável.

 

Por esses tempos, o P – aquele que queriam sanear e que já se encontrava no Brasil lançando a sua nova e brilhante carreira, rodeado de tudo o que era sua família e de sua mulher, e que cá deixara um Centro de Cálculo dotado de um superpotente computador UNIVAC – tinha sido substituído, na chefia do Centro, pelo Q , engenheiro matemático, muito mais matemático que engenheiro.

No Porto havia também um Centro de Cálculo por onde tinha passado os projetos das barragens dos grandes centros produtores hidroelétricos e cujo chefe era o S, outro engenheiro matemá­tico, que foi ambos, aplicando a matemática à engenharia das barragens.

Nesses tempos, o CL, que tinha o seu gabinete na DCO no 4º andar na Cova da Moura, notava que, de um dia para o outro, sistematicamente lhe desapareciam, de cima da sua secretária, vários documentos do funcionamento orgânico da CPE: IS, OS, Despachos, etc. emitidos pela Gerência. À noite, quando saía, estavam lá, na manhã seguinte, quando chegava, não estavam em nenhum lado.

Estranhou: todos os documentos eram públicos pelo que não havia nenhum que quebrasse um sigilo. Mas, naqueles tempos de luta política, tudo podia acontecer; até encomendas a mulheres da limpeza.

O Centro de Cálculo de Sacavém, com a saída do P e entrada do Q, deixou de funcionar (as pessoas, não as máquinas).

No Porto, o S, uma pessoa aparentemente muito calma e pouco faladora, que fora, politica­mente, sistematicamente do contra, aspirava viver agora num mundo sossegado. Mas “o novo tempo” trouxe-lhe um mundo demasiadamente agitado, sem nexo aparente e, importantíssimo, sem a vinda e a vida de novos aproveitamentos hidroelétricos.

E o S posicionou-se para a reforma.

Centro de Cálculo de Sacavém – onde se devia estar a conceber e elaborar os programas que iriam correr no UNIVAC, libertando o pequeno IBM 1620 (onde corriam os grandes processos administrativos e nomeadamente o do pagamento a todos os colaboradores do Quadro Perma­nente da empresa) – paralisado.

Centro de Cálculo do Porto, sem perspetivas de investimento em novos centros produtores hi­droelétricos e com o seu cérebro posicionando-se para saída.

Havia que ter solução; tinha que ter uma solução.

Não era a DCO uma Direção Central de Organização? Não era a mania que o CL era um “especi­alista” de informática? Não era este problema um problema de organização e informática? Não está o CL já em Sacavém com a missão de pôr aquela gente a trabalhar? Logo, o CL que resol­vesse o problema e entregasse a solução. Nada mais simples.

E era por isso que nos estávamos a reunir com muita frequência, umas vezes no Porto, outras em Lisboa, os três da vida airada: o Q, o S e o CL.

Estávamos nós reunidos no meu gabinete na Cova da Moura, numa reunião longa que continu­ava noite adentro quando – eram 21:00 – se abre a porta e entra e estaca uma “miúda” esbelta, nem alta nem baixa, uma “coisa” bela, uma preciosidade da cabeça aos pés. Estacou de espanto e saiu.

Claro! O Q entra logo a matar:

– Ó CL! Devias-nos ter dito. Eu e o S vamo-nos já embora. Francamente, ó CL, porque é que não nos disseste?

– Não. Vocês tornam-se a sentar. Vou só ali fora tentar perceber o que foi isto e volto já para continuarmos.

Saí à procura da “miúda” que ainda ali estava.

Perguntei-lhe o que desejava e ela respondeu-me em bom português, que procurava informa­ção sobre a empresa (àquela hora? No meu gabinete? Pensei eu); perguntei-lhe donde vinha, para quem trabalhava e ela disse-me que era americana, aluna de uma Universidade funcio­nando em navio de Cruzeiro pelo mundo e que presentemente estavam em Lisboa por alguns dias ainda.

Disse-lhe que a empresa tinha um Departamento de Informação, naquele edifício uns andares abaixo, que teria imenso prazer em lhe dar toda a informação que necessitasse. Àquela hora já não estava lá ninguém, mas que fosse no dia seguinte, logo de manhã e pedisse para falar com o Engº. R.

E voltei para o meu gabinete para continuar a reunião, satisfeito por uma beleza me ter resolvido o mistério do desaparecimento dos documentos da minha mesa de trabalho.

Abro a porta e dou de caras com os dois já em pé, com os respetivos sobretudos envergados e malas na mão, decididos a sair. E saíram mesmo, não sem antes o Q me pregar outro “raspa­nete” por não os ter avisado e assim me terem estragado o encontro…

E a partir daquele dia, curiosamente, não mais houve papéis desaparecidos.

No dia seguinte falei logo de manhã com o R para ver se ele tinha sido contactado por uma “loirita”. Negativo!

E segui rumo ao Centro de Cálculo de Sacavém para me embrenhar com aquela gente, pondo-me a trabalhar com eles, arrastando-os no meu trabalhar – já tinham começado a trabalhar, mas ainda muito longe da capacidade de produção de que aquela gente alegremente dispunha… e o tempo já era curto para o tanto trabalho que ainda faltava.

E qual é o meu espanto quando, dentro da grande área onde as Unidades Centrais, as Unidades de Armazenamento de Massa – discos e bandas magnéticas – e outros Periféricos se encontram instalados, encontrava-se também, passeando-se livre e com todo o à-vontade, a “miúda” loira da visita da véspera à noite ao meu gabinete. Evitou-me e eu não forcei. Mas ficou-me a dúvida: a sua presença naquele espaço de acesso altamente restrito resultava de o controlo de acesso a ter autorizado ou o controlo também não funcionava, em Sacavém

Nessa semana deve ter havido grande invasão de Lisboa por elementos da Universidade Cru­zeiro.

Foi bem escolhido o elemento que me dedicaram. Apreciei-o. Era bela. Gostei.

A outra força política em combate também recebia apoios exteriores, mas nesta área era mais modesta e satisfazia-se com a “prata da casa”.

A DCO nunca teve apoio de secretariado com pessoal do quadro. Para o projeto RGO, requisitou a uma empresa de trabalho temporário um elemento para esse apoio, uma tal C, com grande poder de perturbação sobre os homens.

Nunca se tinha visto coisa assim: para as grandes reuniões de coordenação do projeto invaria­velmente marcadas para as 9 horas da manhã, toda a gente de Norte a Sul do país comparecia alegremente às 8:30 o mais tardar!

Às 9 estava toda a gente, nunca ninguém chegava atrasado. Nunca se tinha visto tal pontuali­dade…

Infelizmente a C começou a assumir o ascendente que tinha sobre as pessoas e em vez de se limitar ao seu papel de apoio de secretariado, atribuiu-se também o papel de orientadora do outro colaborador, desenhador, do quadro da DCO.

Teve de ser devolvida, para pouca sorte dela, porque logo a seguir veio o 25 de Abril e todo esse pessoal temporário foi automaticamente integrado no quadro permanente da CPE.

Foi depois vista no Parque Mayer, integrada no corpo de baile de uma revista.

Tempos depois chegou-nos uma administrativa do quadro de nome MA.

Um dia a MA vem ao meu gabinete perguntar se eu tinha tirado da secretária dela um docu­mento que acabara de chegar do secretariado da Gerência.

Entre ela ir à casa de banho e voltar, o documento tinha desaparecido.

E este fenómeno começou a ser desagradável: tínhamos de estar permanentemente a pedir outro exemplar mal aquele tinha chegado da Gerência!

Um dia em que ela me veio participar de mais um desaparecimento, disse-lhe:

– Vem cá.

Levei-a á varanda que dava para a Infante Santo e disse-lhe:

– Vamos olhar lá para baixo e vamos ver quem vai sair.

E logo a seguir quem sai? Um nosso elemento do DCO chamado M.

Disse à MA:

– Vai ali o documento que acaba de desaparecer da tua secretária.

E perante o seu ar claramente perturbado concluí:

– Não há problema nenhum, não te preocupes, vai-se resolver já. Quando o senhor M tornar a aparecer diz-lhe que vá ao meu gabinete, que preciso de falar com ele.

E assim foi. O senhor M apresenta-se no meu gabinete e eu digo-lhe:

– Senhor M, o senhor não precisa de “roubar” documentos. Quando quiser um documento diga-me que eu mando tirar uma cópia para lhe ser entregue. Não é preciso roubar. Já viu o mau aspeto: chega-nos um documento do secretariado da Gerência e logo no momento a seguir já estamos a pedir outro exemplar? O senhor M não rouba, peça que eu dou.

O senhor M não disse uma palavra. Saiu silencioso como entrou.

A MA não queria acreditar: nunca mais lhe desapareceram documentos. Perguntei-lhe se o se­nhor M tinha passado a lhe pedir cópias. Disse-me que não. E assim acabou mais um problema simples, de aparência misterioso e complicado…

 

Testemunho Engenheiro Cortez Lobão, Maio 2016. Recolha de Gabriela Morim. Adaptado por A. Pita de Abreu

Ilustração: Quino in www.lambiek.net

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