São rosas, Senhor!

Reza a lenda que o célebre Milagre das Rosas terá ocorrido em Coimbra quando a excelsa rainha D. Isabel transformou o pão, que levava para os pobres, em rosas, com receio do seu real esposo aparecido subitamente, não se sabe de onde, e lhe perguntou o que levava no regaço (seria o sapiente D. Dinis tão desconfiado?). “São rosas, Senhor!”, respondeu-lhe serenamente a rainha que viria a ser santa. Quem perdeu, claro, foram os pobres que assim ficaram sem o pão que apeteciam.

Todavia, pouco conhecido, há um outro Milagre das Rosas, este bem mais proveitoso para os seus beneficiários, que a lenda situa em Alenquer, no ano de 1321.

Também aqui D. Dinis, poeta e visionário, não fica bem nas crónicas, pouco fiáveis, aliás, pois por então o fidedigno Fernão Lopes ainda não era nascido. Segundo algumas delas, a benemérita rainha fora por ele exilada para Alenquer alegadamente como castigo por, segundo régia suspeita, estar do lado do filho, futuro rei D. Afonso IV, na contenda que mantinha com o ilustre progenitor. Sabe-se, no entanto, que ela apenas procurou apaziguar as más relações entre ambos, por mor da sucessão ao trono.

Não foi em vão, no entanto, o “exílio” da Rainha Santa, na vila de Alenquer. Entre outras iniciativas (deve-se-lhe, por exemplo, a criação das Festas do Divino Espírito Santo, outro facto pouco conhecido), resolveu D. Isabel mandar erigir uma igreja, junto ao rio, com o mesmo nome (e isto não é lenda), que Camões cantaria dois séculos e uns anos depois. É então que, no primeiro dia das obras, a rainha surge aos pedreiros e serventes, qual visão celestial, e oferece uma bela rosa a cada um, pedindo-lhes que a guardassem em lugar seguro. Estupefactos, estes assim fizeram (ao pedido de uma rainha, mesmo bondosa, não se pode desatender). À noitinha, quando terminaram a dura e sacra jorna, por certo mal paga, dirigiram-se ao local onde guardavam os seus parcos haveres e que viram eles que os fez arrelampar e esfregar os olhos já sonolentos? Não as perfumadas rosas, mas surpreendentes e brilhantes dobrões em ouro de lei! E, desta vez, D. Dinis, rei de Portugal e do Algarve, lá do alto do seu trono, no Paço do Castelo de S. Jorge, certamente assoberbado com a governação do reino e as travessuras do filho, ou buscando inspiração para uma cantiga (“ai flores, ai flores do verde pino”), nada soube nem pôde fazer.

Versão de José Rogeiro ainda a cheirar a pão que se fez rosas e a rosas que se fizeram dobrões

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