Memórias de Macau

Uma Revolução na China

Caminhava para o fim o ano de 1991, estava eu em Macau, a trabalhar na companhia de eletricidade local, quando tive oportunidade de fazer uma viagem ao norte da China. Foi uma viagem de grupo, que juntou principalmente colegas da empresa e respetivas mulheres. Começamos em Xian, antiga capital do Império, depois Pequim, com a inevitável ida à Grande Muralha, e finalmente Xangai, onde se passou o episódio que vou contar.

Xangai foi, na primeira metade do século XX, a cidade mais europeia da China, onde as grandes potências, que na altura dominavam o país, instalaram as suas feitorias, que funcionavam como zonas independentes do poder local, e que só acabaram em 1949, com a vitória do movimento liderado pelo Mao Zedong. Desta época destacou-se um conjunto de edifícios imponentes, idênticos aos que vinham sendo construídos no mundo ocidental, merecendo especial referência os edificados ao longo da Bund, a avenida que corria ao longo dum rio, afluente de Yangtze, mas de que me não recordo o nome.

Em Macau tínhamos reservado alojamentos no emblemático Hotel da Paz, um belo edifício Arte Deco, dos anos 20 do século passado e situado em pleno Bund. Para completar o revivalismo, uma pequena orquestra tocava música de dança americana, da primeira metade do século. Os músicos eram todos muito velhos, e dizia-se que já lá estavam antes de 1949…

Na primeira noite, por volta das três horas, acordamos com uma forte explosão na rua, junto do nosso hotel. Corri à janela e apercebi-me duma grande confusão, com muita gente a falar e dois automóveis a arder. Quando voltei com a câmara de vídeo para filmar a “revolução” comecei a reparar em alguns pormenores: havia muitos projetores a iluminar a rua e os automóveis eram maquetes de modelos antigos...Afinal, era uma filmagem!

No dia seguinte de manhã confirmámos que se tratava duma cena dum filme, contando uma história de gângsteres em Xangai, nos anos 30.

Foi assim que imaginámos estar a assistir a uma revolução na China, quando ainda tínhamos muito presente o que se tinha passado em Tienamen, e pensávamos que situações idênticas se podiam repetir.

Oeiras, 19 de julho de 2021

Luís Lucena Ferreira

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