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Lapa, Madragoa e … Mocambo, na cidade de Lisboa

Quando o Bairro aristocrático da Lapa dá o braço ao seu vizinho Bairro da Madragoa e juntos descem a colina até ao Tejo, deparam-se com o Antigo Paço Real, (hoje Embaixada de França) e com a antiquíssima Igreja de Santos-o-Velho. Neste palácio, antigo Convento das Comendadeiras de Santos-o-Velho, fixou residência D. Manuel I, por apreciar a localização do mesmo e a sua bela vista para a praia do Tejo. D. Sebastião, seu neto, também aqui viveu e, reza a história, que daqui partiu para Alcácer-Quibir. Podemos ainda localizar nesta zona da cidade de Lisboa, o Convento das Trinas do Mocambo (mais tarde Instituto Hidrográfico) e o Convento das Bernardas, onde hoje podemos visitar o Museu da Marioneta. Mais para ocidente, além do Museu Nacional de Arte Antiga existem diversos palacetes uns transformados em unidades hoteleiras, outros albergando instituições públicas. Um deles foi motivo de inspiração para Eça de Queiroz, que o mencionou no seu romance “Os Maias” como a Casa do Ramalhete.

No entanto, alguns séculos atrás, esta zona considerada um arrabalde de Lisboa, compreendia o Mocambo, bairro criado por alvará régio de 1593 e organizado simultaneamente pelos africanos livres ou forros e pelas  autoridades locais. Era uma forma de descongestionar a cidade, alargando-a mais para ocidente. O Mocambo (que em “umbundo” significa “pequena aldeia” ou “lugar de refúgio”) foi realmente a “aldeia” onde estes africanos procuraram ter uma habitação autónoma, onde podiam acolher os seus irmãos escravos (embora à revelia das normas legais) e onde podiam praticar os seus rituais, religiosos ou sociais, longe do olhar crítico dos portugueses. Muitos serviam nas casas senhoriais, outros estavam encarregues da limpeza de todos os espaços públicos da cidade e percorriam-na de lés a lés, dedicando-se à venda de bens alimentares à população de Lisboa, através do comércio porta a porta. Além disso, havia outras profissões a que os homens se dedicavam,  pesca,  marinharia,  tecelagem,  olaria e ferraria. Podemos dizer que o Mocambo era o entreposto que abastecia a cidade.

A partir do séc. XVIII, no seguimento do desenvolvimento industrial do país levado a cabo pelo Marquês de Pombal e com a abolição da escravatura,  os africanos foram deixando o Mocambo e deslocaram-se para a periferia da cidade de Lisboa para irem trabalhar em fábricas aí instaladas.

A grande transformação geográfica  deste local da cidade dá-se logo após o terramoto de 1755. Com a Baixa da cidade totalmente destruída pelo terramoto, maremoto e incêndios que se seguiram, parte da população que aí habitava vem instalar-se nesta zona mais ocidental. Ao redor do velho bairro, foram crescendo novas construções, diversos palacetes, geralmente de traça pombalina, onde a classe nobre e a alta burguesia fixaram as novas residências. Outros edifícios mais modestos, normalmente de três andares, seguindo a mesma traça, destinavam-se a uma classe menos abastada. Em 1780 foi criado o Bairro da Lapa.

Com a construção dos caminhos-de-ferro em Portugal e a chegada do comboio ao Porto em 1877, muitos migrantes vindos da zona de Ovar e da Murtosa, ligados à pesca e à construção naval, vieram habitar este antigo bairro do Mocambo que passou a chamar-se  Bairro da Madragoa.

Desaparece o Mocambo e surgem a popular Madragoa e a aristocrática Lapa. Acredito que muitos moradores, que algumas vezes por graça discutem se esta rua aqui ou a outra acolá pertence à Lapa ou à Madragoa, desconhecem, na sua maioria, que todos estão a viver em terras de Mocambo!

Elisabete Saleiro

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