Diamantes no Rio

Salvador Peres

Uma nuvem alta sobrevoa o céu diáfano e uma brisa suave sopra uma fresca aragem de noroeste sobre o dédalo avermelhado dos telhados dos bairros velhos da cidade. Na face espelhada do rio reluz uma miríade de diamantes, que cintilam e rebrilham numa reflexão límpida e cristalina. O rio, sedento da sua amada foz, vem subindo, alongado e sinuoso, desde as altaneiras montanhas alentejanas, galgando barrancos, vagabundeando por entre verdes arrozais, na busca do ansiado mergulho na frescura da imensidade marítima.

Na frente côncava da cidade, a beira-rio, como num passe de magia, transmuda-se em beira-mar, fundindo-se com o oceano numa variada e infinda paleta de azuis. A água, que ora flui, ora reflui, na eterna dança das marés, lambe docemente as muralhas do porto e cria redemoinhos espiralados de alva espuma de encontro ao areal dourado das praias.

Este rio, que contraria azimutes e latitudes e vem correndo, discreto e silente, de sul para norte, e que vai encorpando as águas na sua ânsia estuarina, é o doce Sado. Ele leva às margens por onde escorre docemente o delicado frescor da força primeva que lhe deu origem.

Este rio, que delineou na frente ribeirinha um mar que se arqueia numa deleitosa baía, colorindo de azul um anfiteatro onde se espraia a sonhadora península troiana, é o belo Sado. Ele é o íman que alicia, une e cunha as gentes que acorrem, desde tempos antiquíssimos, ao seu apelo irresistível, moldando o viver da cidade. Terra marinha, de gente áspera que entretece, com mãos calosas, poemas sonhados no vaivém das marés, feitos sal e mar, de sol e chuva, de bonança e tempestade, de ondas e barcos, de remos e redes, de salmonetes e gaivotas.

O rio viandante do Sul, que trocou as voltas à geografia, vem em demanda do mar, que pede entrada ao estuário do Sado junto às falésias da altaneira e ascética Serra da Arrábida, lugar mágico, morada de poetas e místicos. Este é o lado do mundo onde o todo desagua. Onde a emergência cósmica erigiu um lugar de silêncio e sortilégio que liga o Homem aos mistérios insondáveis da criação. Rio e homens buscam este lugar, desde tempos imemoriais: o rio, no seu diálogo aquático com a enormidade oceânica; o homem, na tentativa de compreensão da infinidade do universo.

A venerada Serra da Arrábida emergiu como um espaço único e singular, território do sagrado e do profano, entidade ecuménica que une os homens numa verdade maior, um lugar que quebra barreiras entre ciência e transcendência e a matéria emerge em consonância com o espírito.

Uma nuvem mansa paira sob o céu translúcido e uma aragem aprazível arqueja uma fresca brisa de noroeste sobre o labirinto cromático dos telhados da cidade de Setúbal. A minha cidade.

Foto de Alberto Pereira

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