Salvador Peres
Ontem à tarde desci à entrada do meu prédio. Peguei na chave da caixa do correio e abria-a. Um monte de sobrescritos atulhava a caixa. Vasculhei por entre a papelada em busca de missivas da família ou de amigos, trazendo notícias lá da terra, de anúncios de casamentos, do nascimento de um filho, de uma promoção lá no emprego, de lugares distantes onde foram passar férias ou, já que estamos na quadra natalícia, de cartões com votos de boas-festas. Nada. Apenas alguns folhetos de publicidade, promoções do Black Friday, avisos de pagamento do gás, da água, da electricidade, dos telefones, extractos bancários, avisos das finanças… O habitual. Bem sei que é assim há muito tempo. É assim desde que as mensagens por correio electrónico ou SMS, posts whatsapp, instagram e facebook tomaram conta das comunicações e das nossas vidas. Mas se sei que é assim, por que razão ainda revolvo a caixa de correio em busca do que desapareceu para sempre, se esfumou sem deixar rasto? Será apenas um reflexo antigo que teima em fazer com que procure o que já não existe ou a vã esperança de que alguém tenha escapado a esta voragem da modernidade? E um simples postal, feito de cartão, escrito à mão, assinado com a caligrafia de alguém que nos é próximo traga luz e cor ao cinzentismo da minha caixa de correio?
Amanhã, vou comprar uns postais de natal e escrever saudações de boas-festas, com a minha caligrafia, para enviá-los a alguns dos meus amigos. Vou mudar o mundo? Não! Vou apenas tentar dar sentido ao meu, àquele em que ainda acredito.

