Recordando… O passado
No dia 8 de maio, desloquei-me à Biblioteca Eng.º Jorge Bento, em Condeixa, com o simples propósito de ler a imprensa. No entanto, não imaginava que ali reencontraria memórias adormecidas há tanto tempo.
Logo à entrada, deparei-me com um expositor dedicado à Biblioteca Móvel. O título despertou de imediato algo em mim, uma familiaridade antiga, quase esquecida. Ao avançar para a sala de exposições, encontrei vários expositores com livros que, em tempos, tinham sido apreendidos pela PIDE e que agora eram apresentados como um tributo à coragem de quem acreditou, mesmo em tempos difíceis, que o acesso à cultura era um direito essencial.
À medida que observava aqueles livros, a emoção foi crescendo dentro de mim, silenciosa, mas intensa. De repente, fui transportada para a minha infância.
Recordei os meus dias de escola primária, numa pequena aldeia do concelho da Covilhã. Naqueles tempos, o acesso à leitura era escasso — quase inexistente para além dos manuais escolares obrigatórios. Mas havia um dia especial, um momento aguardado com entusiasmo: a chegada da carrinha itinerante — penso que era assim que se chamava — que percorria as aldeias, levando consigo um tesouro que, para nós, valia mais do que qualquer outra coisa: livros.
Não sei ao certo quem organizava essa iniciativa; talvez o professor nos tenha explicado, mas essa memória perdeu-se no tempo. O que nunca se perdeu foi a emoção.
O nosso professor levava-nos até ao adro da igreja, onde a carrinha estacionava. Lembro-me da expectativa, dos olhares curiosos, das mãos ansiosas. Um a um, recebíamos um livro, com a recomendação de o estimarmos bem, pois aquele mesmo exemplar iria passar por muitas outras mãos, muitos outros sonhos.
E foi assim que, sem sair da aldeia, começámos a viajar. Cada página era uma porta aberta para o mundo, cada história um horizonte novo que se desenhava diante de nós.
Hoje, ao reviver essas memórias, senti novamente a criança que fui — aquela que descobriu, nos livros simples de uma carrinha itinerante, a liberdade infinita da imaginação.
