Quarenta anos depois, os testemunhos dos associados da AREP revelam percursos de trabalho, amizade e ligação à EDP. Entre centrais, laboratórios, redes, balcões e escritórios, emerge uma memória coletiva feita de responsabilidade, pertença, aprendizagem e gratidão, mostrando que cada história individual também ilumina o presente comum.
Há questões que parecem simples, mas abrem portas a memórias vivas. “Onde estava há 40 anos e o que fazia nessa altura?” é uma delas. No caso dos associados da AREP, as respostas revelam muito mais do que locais, funções ou datas. Mostram uma geração marcada pelo serviço público, pela responsabilidade, pela cultura técnica, pela amizade e por uma forte ligação à empresa.
Passado esse tempo, o que fica não é apenas a lembrança de centrais, laboratórios, redes, balcões ou escritórios. Fica uma forma de estar: trabalho com compromisso, empresa como comunidade, colegas transformados em amigos e memória partilhada.
Nas centrais, nos laboratórios e nas redes
Para muitos associados, há 40 anos era tempo de estar no coração operacional do setor elétrico. As centrais, os laboratórios e as redes eram espaços de exigência, aprendizagem, risco e camaradagem. Ali se garantia a continuidade de um serviço essencial.
Henrique Pinto estava na Central do Carregado, como operador de bloco. Mas o seu dia a dia ia além da função técnica: dedicava-se também à criação e consolidação de um sindicato vertical para o setor, era autarca e cofundador de um lar da terceira idade. Guarda o entusiasmo pelo serviço público, o respeito pelos representantes locais e a consciência da importância da atividade profissional.
Guilherme Santos trabalhava na Central Termoelétrica de Sines, como preparador de trabalho na área de métodos da mecânica, depois de ter passado pelo Barreiro. Recorda Sines em pleno funcionamento, com desafios constantes e forte espírito de grupo. A central está hoje em desmantelamento, mas permanece na sua memória como polo decisivo para a região e como o maior desafio da sua vida profissional.
Carlos Alves vivia no Lavradio e trabalhava na Central do Carregado, ligado à condução de instalações. Nesse ano transferiu-se para a Central do Barreiro e, mais tarde, passou para a área administrativa. Guarda desses primeiros anos a felicidade no trabalho, o companheirismo e a amizade, reconhecendo a profunda transformação da empresa até à reforma.
João Silva vivia em Almada e tinha já um percurso ligado às centrais. Participou no arranque do grupo 5 e, mais tarde, no arranque do primeiro grupo da Central Termoelétrica de Setúbal, em 1979. Recorda a competência das equipas, a alegria partilhada e o conhecimento de vida que o trabalho por turnos lhe deu.
No Algarve, António Alves vivia no Bairro da EDP em Tunes e trabalhava como eletromecânico de turbinas a gás na Central Termoelétrica de Tunes. Lembra o convívio entre colegas e os torneios de futebol de salão. Em 1987 passou para a Rede de Transporte, onde ficou até à reforma, marcado pela evolução da rede no Algarve e Alentejo.
Também noutras funções técnicas, a memória segue outro ritmo. Adelino Fernandes estava na Aguieira, como observador de estruturas. Recorda o engenheiro Edgar Dogner, que o incentivou a prosseguir estudos e influenciou a sua forma de estar, tornando-o um profissional mais consciente e responsável.
Nas redes, o sentido de responsabilidade surge com força. Carlos Faria estava em Coimbra, como técnico da rede de alta tensão, e guarda o gosto pelo trabalho e a responsabilidade que esses anos lhe deram. José Valdemar Varandas vivia em Aveiro e trabalhava como eletricista TET/MT. Depois de sair de Vila Real, encontrou uma equipa de grande camaradagem, regressou à terra natal, prosseguiu formação em Engenharia Eletrotécnica e recorda o percurso com orgulho, pela adaptação e evolução.
Também Celestino Sacramento vivia a energia no terreno. Em Santa Maria da Feira, trabalhava em baixa tensão, novas ligações e postos de transformação. Guarda o prazer de ter participado em remodelações da rede aérea e resume o percurso com uma ideia simples: sentiu sempre prazer no trabalho.
Outras funções faziam igualmente parte do quotidiano do setor. Noel Camoesas vivia em Setúbal e trabalhava como leitor-cobrador no concelho de Palmela, na União Elétrica Portuguesa, empresa que integrou a criação da EDP. Recorda tempos de revolução, em que tudo parecia novo, e valoriza a possibilidade de construir uma vida em liberdade.
Já Carlos Caninhas, que trabalhava no despacho da LTE, em Loures, guarda uma memória dolorosa: o acidente mortal de um colega na subestação de Moscavide, episódio que reforça a dimensão humana de profissões de risco.
Onde o trabalho ganhava rosto
Nem só nas centrais, nos laboratórios e nas redes se construía a história da empresa. Nos balcões, escritórios, tesourarias, áreas comerciais, centros de distribuição, comunicação e serviços administrativos também se resolviam problemas, apoiavam clientes e criavam laços.
Armando Cavaleiro vivia em Lisboa e trabalhava na EQET. A memória que destaca são os preparativos para o casamento, sinal de como a vida profissional e a vida pessoal se cruzavam. Quarenta anos depois, resume a influência desses tempos numa expressão essencial: relacionamento humano.
Maria Beatriz Barros estava no Porto e tinha entrado há pouco tempo na EDP. Recorda Alves da Veiga como uma verdadeira família, onde todos se ajudavam. Refere pessoas que a marcaram, como o engenheiro Oliveira Soares, D. Maria da Graça e a telefonista Dulce Morais, sua irmã e suporte vital no emprego e na vida pessoal. Da EDP guarda colegas que se tornaram amigos para a vida.
Maria Lisete Farinha trabalhava na Tesouraria da EDP, na Rua Camilo Castelo Branco, em Lisboa. A sua memória é sensorial: ainda hoje identifica o cheiro do edifício quando recorda a entrada na empresa. As pessoas com quem se cruzou enriqueceram profundamente a sua vida.
No contacto com clientes, Ana Bela Couteiro era técnica comercial na EDP, no Marquês de Pombal. O que mais a marcou foram as vidas que passaram por si, os problemas que ouviu e ajudou a resolver, sempre com espírito de missão. Esses anos ensinaram-lhe que a vida é feita de coisas boas e menos boas, mas que está nas nossas mãos tentar melhorar.
Maria Virgínia Rodrigues vivia em Carnaxide e trabalhava como operadora de reprografia. Guarda a convivência com os colegas e reconhece que o tempo a tornou mais cautelosa, sem lhe retirar a essência. Amélia Novo trabalhava na área de Comunicação da EDP e recorda a internacionalização da empresa como momento de abertura de visão e missão.
José Marcos da Silva trabalhava na Amadora e era diretor do Centro de Distribuição Oeste, responsável pela distribuição na Amadora, Cascais, Oeiras e Sintra. Recorda esse período como a primeira vez em que se sentiu verdadeiramente responsável e com influência direta no desempenho da unidade. Tinha autonomia e capacidade de decisão, mas, ao olhar para trás, afirma que, para além da família, ficam sobretudo os amigos.
António Baptista Neves vivia em Cascais e trabalhava em Lisboa, como técnico de desenho, na Direção Operacional de Produção e Transporte. Em 1986 foi transferido para Viseu, regressando às origens. Mais tarde, foi dirigente sindical e diretor do Clube de Pessoal, Delegação de Coimbra, percurso que prolongou numa vida de voluntariado, participação autárquica e envolvimento social.
Manuel António Silva trabalhava como escriturário no Órgão Central de Cooperação Externa da EDP e era trabalhador-estudante no ISCSP, em Política Social. Vivia na Amadora, era casado e pai de uma criança de nove anos, principal razão da sua vida. Recorda-se como trabalhador rebelde e inquieto, avesso a qualquer tirania, num ambiente agradável, desafiante e solidário. Esses 40 anos consolidaram nele um cidadão inquieto, que aprendeu a sorrir à vida mesmo quando a vida não lhe sorria.
Vítor Lopes estava em Leiria e recorda a integração na EDP, vindo da FMDL. Reteve a descoberta de uma nova área geográfica, de novos colegas e conhecimentos. Mais do que aprender, valorizou partilhar o que sabia.
Tecnologia, informática e especialização
Há 40 anos, a empresa e o país mudavam tecnologicamente. A informática começava a ganhar lugar na gestão, nos ensaios, nas redes e na organização do trabalho. Para muitos associados, foi tempo de aprendizagem intensa, adaptação e especialização.
Augusto Machado trabalhava no Centro de Informática da EDP, na Rua Alexandre Herculano. Recorda um tempo de dedicação plena, motivado pelas transformações em curso, com muito trabalho, excelente camaradagem e valorização dos trabalhadores.
Luís Bernardo vivia em Alverca, trabalhava no Laboratório de Sacavém, no Grupo de Estudos de Eletrónica Aplicada, como técnico de telecomunicações, e estudava no Instituto Superior Técnico. Estava motivado pelos projetos em que participava e foi nessa altura que foi abordado para se tornar associado da AREP. Quarenta anos depois, reconhece uma influência enorme, como homem e profissional: encontrou pessoas inspiradoras, consolidou uma cultura de rigor e sentido ético e aprendeu que era possível alcançar resultados respeitando valores.
José Allen Lima trabalhava, em 1986, no Transporte de Eletricidade, em Sacavém. Era especialista em regimes transitórios eletromagnéticos em redes de alta e muito alta tensão, fiabilidade e ensaios de equipamentos da Rede de Transporte. Tinha concluído um período de docência no Instituto Superior Técnico e dava os primeiros passos na gestão, coordenando uma equipa de especialistas. Recorda os ensaios de entrada em serviço da nova rede de 400 kV e a amizade com Augusto Vaz, que seguia o lema “quem mede, sabe”. Mais tarde, assumiu a direção da Rede de Transporte, levando consigo rigor técnico e económico, colaboração e respeito pelos outros.
Gaspar Martins dos Santos vivia em Lisboa e era engenheiro eletrotécnico na EDP, Direção Sul. A memória mais marcante foi trabalhar com os engenheiros Pedro de Jesus e Júlio de Barros. Quando pensa na influência desses anos, destaca a introdução da informática na gestão da EDP.
Ana Cristina Duarte cresceu a ouvir falar da “Companhia”, por ser neta de um trabalhador da Central Tejo e filha de um trabalhador das ex-CRGE. Em 1986 trabalhava em Lisboa, na Rua Camilo Castelo Branco, na contratação de grandes clientes. Recorda os anos 80 como desafiantes, pelo aparecimento de novas tecnologias, e valoriza a partilha entre colegas, o companheirismo, as amizades que perduram, o sentimento de pertença e o orgulho em “ser EDP”.
Juventude, estudo, família e sonhos em construção
Alguns testemunhos mostram a vida para além da carreira: a escola, a família, os filhos, os casamentos, os estudos à noite, os sonhos pessoais e os caminhos ainda a começar.
Nuno Miguel Quintela estava no 6.º ano de escolaridade, em Odivelas, e recorda o contexto político exuberante da época. Mais tarde entrou para a LTE, com orgulho por integrar uma empresa de referência nacional, e hoje transmite esse carisma aos novos colaboradores nas sessões de formação internas.
Lucília Fonseca vivia no Barreiro, era casada há três anos e trabalhava na EDP há sete. A memória mais marcante é pessoal: foi o ano em que engravidou. Ter sido mãe em 1987 influenciou toda a sua vida, tal como os 40 anos de trabalho na EDP, feitos de bons e menos bons momentos, mas impossíveis de esquecer.
Paulo Gomes tinha 20 anos em 1986. Ainda hoje no ativo, recorda uma forma de trabalhar mais manual, próxima, hierarquizada e circunscrita. Trabalhava de dia, estudava à noite na Escola Infante D. Henrique, no Porto, deslocava-se de comboio, jogava futebol e namorava. Quarenta anos depois, sente-se menos ansioso e mais compreensivo consigo próprio e com o mundo, consciente da necessidade de relativizar.
Angelino Pereira residia em Guimarães, trabalhava e estudava na Cidade Berço. Guarda boas recordações do êxito escolar e profissional, da publicação em jornais e revistas e do início de uma carreira literária que hoje conta com 18 livros e participação em mais de quatro dezenas de coletâneas. Para si, leitura e escrita são caminhos de crescimento.
Filipa Queiroz ainda não tinha nascido há 40 anos, mas quis associar-se à iniciativa. O seu testemunho cria uma ponte entre gerações. Recorda os primeiros passos na EDP, em 2012, e a impressão causada pelo engenheiro Pita de Abreu. Mais tarde regressou para construir a comunicação na Sãvida e apoiar o antigo Gabinete do Utente. Ao ficar responsável pelos contactos com a AREP, procurou aprender com a sabedoria acumulada de quem tinha observado muitos anos antes.
Ao longo destes testemunhos, há uma palavra que regressa com frequência: colegas. Ou, talvez melhor, amigos. Quarenta anos depois, a memória profissional surge também como uma memória humana, feita de equipas, chefias inspiradoras, relações de confiança e laços que resistiram ao tempo.
Percursos que também fizeram comunidade
Entre as respostas ao inquérito, surgem ainda testemunhos que acrescentam novas camadas a esta memória coletiva. José Maria Correia recorda Coimbra, a Direção de Distribuição Centro e uma carreira construída passo a passo, desde a entrada na indústria elétrica, ainda muito jovem, até à área da contabilidade e finanças. Mais do que cargos, ficaram-lhe as oportunidades de crescimento e os amigos conquistados em contactos e reuniões de trabalho.
Também Graciano Figueiredo Teixeira associa esses anos ao serviço de piquete de avarias, em Viseu, destacando a melhoria da qualidade e da segurança no trabalho, bem como o sentido de responsabilidade que levou consigo. Alda Rodrigues lembra Lisboa, os estudos em horário pós-laboral e o trabalho na EDP Distribuição, mas sobretudo o apoio de colegas e hierarquias que foram determinantes para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Hoje, enquanto voluntária ativa da AREP, reconhece que essa experiência lhe reforçou a atenção às pessoas, às suas histórias e à importância de dar tempo ao próximo. Maria dos Anjos Rosa, em Setúbal, conciliava trabalho, estudo e vida familiar, num período marcado por desafios exigentes, mas também por equipa, entreajuda e reconhecimento.
Já Manuel Martins evoca uma fase de reorganização da empresa, projetos estruturantes como Sines e o Pego, a criação do Grupo EDP e, mais tarde, a liderança da AREP, sempre com a convicção de que as relações humanas, a capacidade de ouvir, a tolerância e a firmeza na ação são aprendizagens que permanecem.
No conjunto, estes testemunhos mostram que a história de há 40 anos também se fez de progressão, serviço, solidariedade e compromisso cívico.
O que 40 anos fizeram de cada um
A pergunta final “De que forma esses 40 anos influenciaram a pessoa que é hoje?” talvez seja a mais profunda. As respostas mostram que o tempo transformou, consolidou, amadureceu e ensinou.
Carlos Faria fala do sentido de responsabilidade. Adelino Fernandes refere uma nova forma de estar como profissional. Carlos Caninhas destaca a preocupação constante em ser uma mais-valia para a EDP.
Amélia Novo fala de maior abertura de visão e missão. Gaspar Martins dos Santos associa esse período à introdução da informática na gestão. José Allen Lima levou a especialização técnica para a gestão, sempre com rigor, colaboração e respeito.
Há quem sublinhe a aprendizagem humana. Ana Bela Couteiro aprendeu que a vida tem coisas boas e menos boas, mas que podemos tentar melhorar. Maria Lisete Farinha sente que as pessoas com quem se cruzou enriqueceram a sua vida. Maria Virginia Rodrigues tornou-se mais cautelosa, mas manteve a sua identidade. Manuel António Silva aprendeu a relativizar problemas e a sorrir à vida. Paulo Gomes tornou-se menos ansioso e mais compreensivo.
Há também quem veja estes 40 anos como um percurso de liberdade e adaptação. Noel Camoesas valoriza ter construído uma vida livre. José Varandas orgulha-se de ter evoluído e de se ter adaptado às mudanças. António Alves ficou marcado pela evolução da rede no Algarve e no Alentejo. António Baptista Neves transformou a experiência profissional em participação sindical, associativa, autárquica e social.
Uma memória coletiva que continua viva
O que estavam os associados da AREP a fazer há 40 anos? Estavam em centrais, laboratórios, redes, balcões e escritórios. Estavam a estudar depois do trabalho, a formar família, a preparar casamentos, a deslocar-se de comboio, a jogar futebol, a escrever, a aprender e a ensinar. Estavam a viver mudanças tecnológicas, políticas, profissionais e pessoais. Construíam uma empresa e, sem talvez o saberem, uma memória comum.
Quarenta anos depois, essa memória não é apenas nostalgia. É património. Prova que as organizações são feitas por pessoas e que o trabalho, quando vivido com sentido, deixa marcas além da carreira.
A AREP tem precisamente esse valor: reunir histórias, preservar laços e dar continuidade a uma comunidade que não terminou com a reforma nem com a passagem do tempo. Estes testemunhos mostram que a ligação entre colegas não desaparece quando se deixa o local de trabalho. Pelo contrário, torna-se muitas vezes mais clara: ficam encontros, lembranças, nomes, lugares, aprendizagens e gratidão.
Há 40 anos, cada associado estava num ponto diferente do mapa e da vida. Uns estavam em Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro, Leiria, Guimarães, Setúbal, Cantanhede, Sines, Tunes, Viseu ou Almada. Outros estavam ainda na escola ou por nascer. Uns trabalhavam em centrais, laboratórios e redes; outros em balcões, escritórios, áreas de comunicação, administração, desenho, informática, contratação, transporte ou distribuição. Mas todos ajudam a contar a história de uma geração que viveu o trabalho com compromisso e olha para trás com lucidez, saudade e orgulho.
No fundo, estes testemunhos dizem-nos que 40 anos não são apenas tempo passado. São tempo vivido, experiência acumulada, relações que resistem e aprendizagens que iluminam o presente. São a confirmação de que a memória de cada um, quando partilhada, passa a pertencer a todos.

