Crónica

A Cooperativa

Henrique Pinto

17 de Setembro, 2026

Quando no Douro Internacional se iniciou a construção da nossa primeira barragem naquele rio, foi imediatamente sentida a extrema precariedade de recursos locais para abastecimento alimentar e doutros serviços, para uma população numerosa e heterogénea que inevitável e longamente habitaria aquele ermo território chamado Barrocal do Douro.

Naturalmente que os mais expeditos, naturais e vindos de fora, logo começaram a aparecer com o seu burrico a mercar os excedentes da sua horta e do seu galinheiro e outros tantos, com cesto às costas, fora das horas de laboração no estaleiro, ou até mesmo em exclusividade, iam comprar aqui, ali e além, para venderem porta a porta o que conseguiam arranjar e transportar

E assim ia crescendo o número de vendedores e de compradores, razão pela qual começaram a ter necessidade de abancar em sítio que a todos conviesse. E aquele pequeno planalto, para as diversas formas de negócio, onde vieram a pontificar os Rapazes da Régua e o Santavalha, foi o local de eleição para as mães de família e para todos aqueles que no princípio lá trabalhavam e viviam, sozinhos ou acompanhados, se abastecerem com os bens de consumo de que diariamente careciam na despensa ou ainda que só para o tachito que ao lume, para muitos, “fervia mentiras”.

E como em qualquer actividade humana a necessidade aguça o engenho e reconhecendo a Hidouro – Hidro Eléctrica do Douro e os seus funcionários a urgência de abastecimento de bens de consumo, frescos, saudáveis e de preço justo, construíram e puseram a funcionar a COOPERATIVA DE CONSUMO DO PESSOAL DA HIDOURO – HIDRO ELÉCTRICA DO DOURO, instalando-se no Centro Comercial que para o efeito foi construído junto do bairro daquele estaleiro

Passou, naquele espaço, a poder-se comprar pão fresco todos os dias; produtos de higiene e beleza; também as notícias em jornais e revistas diárias; e uma estação dos CTT onde, além do Orlando, pontificou o Artur, cuja simpatia era ainda maior que a sua alentada estatura. Noutros balcões servia-se mercearia; peixe fresco e variado; e no talho os tipos de carne ao gosto do consumidor. Nos baixios do Centro Comercial e na sua frente virada a Sul, ficava a taberna para uma cavaqueira no fim dum dia de trabalho e no seu canto oposto funcionava a barbearia onde o João Patusco tratou a nossa pelugem até ao dia… em que se finou. Um pouco mais ao lado e em plano superior, lá está ainda a chaminé da padaria, cujo pão aquecia o nosso paladar e dava aos sabores um certo requinte de guloseima.

Em períodos diferentes houve muitos camaradas e amigos que por ali passaram, trabalhando ou dirigindo, como funcionários uns e somente sócios outros, e de todos ficou uma bela recordação de amizade e de solidariedade à causa comum. Foram eles que com o seu trabalho e simpatia aliviaram a carga, a preocupação e o imenso trabalho que as mulheres de família dos barragistas tinham de, diariamente, a horas certas: pôr comer na mesa, e despachar a tempo pais maridos e filhos para que a obra andasse sempre em frente. A elas, pelo seu trabalho sem retribuição, e aos marteleiros, pelo pó que lhes destruiu os pulmões e a vida, nunca lhes foi reconhecido o esforço tantas vezes sobre-humano, pelo que temos para com eles e elas essa dívida de gratidão.

Para ilustrar estas palavras vou juntar duas fotos do Centro Comercial e alguns dos nomes que, com a sua dedicação e labor diário, fizeram a sua vida naquela obra. Foram muitos, alguns em tempos diferentes e outros a gente já nem lembra:

Anselmo // Afonso // Amílcar // Lúcio // Lúcia // Fernando // Lixívia // Chico Marques // Manuel // Zé da Cantina // Marcolino // Narciso // Manuel dos jornais.
Para tempos e áreas diferentes houve também vários encarregados: O Borges // o Freitas // o Marcos.
Padeiros também houve vários: o Leites // o João // o Lino // o Carvalho, a fechar o ciclo com chave de ouro.
Para todos, pelo seu espírito cooperativo e fraterna simpatia, estejam onde estiverem, Um Xi Coração do tamanho da nossa saudade.

Por aqui, para além de centro de abastecimento e encontro de notícias e teorias, este também foi lugar de olhares furtivos, de palavras murmuradas e de encontro de vidas novas. Era todos os dias à noite, na espera do correio, que muitos sabiam não ter. Agora já não em carrinhos de rolamentos como aquando da sua distribuição no escritório, lá ao fundo, à beira da obra. Não se dispensavam, porém, aqueles momentos diários de boa disposição que muito nos aproximava da civilização que naqueles sítios ermos queríamos viver, ainda que à custa de muitos sacrifícios e de muitos sonhos.

Por último, este toque pessoal: Esta foi a minha única ACÇÃO de investimento de capital de toda a minha vida, o que me orgulha sobremaneira por ser no Movimento Cooperativo.

Porque é que só a subscrevi em Janeiro de 1968? Porque foi esse o meu primeiro mês de cidadão casado, de chefe de família, como então se dizia. Até aí o cooperativista da família era o meu pai.

Henrique Pinto – Agosto de 2021

NOTA: Fotos de Adelino do Vale.

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