O carregador de telemóvel
Numa sala de um hotel, alcandorado na encosta de uma conhecida serra do país, sucumbiam de tédio alguns casais de meia-idade. A sala, confortável, albergava um mobiliário composto de uma dúzia de pares de confortáveis sofás. Na frente de cada par, encolhia-se uma mesinha baixita, onde esmoreciam copos meio debicados de um líquido amarelado. Talvez resquícios de cerveja.
Numa televisão de ecrã ciclópico, esforçavam-se por se fazer ouvir três criaturas indignadas, certamente a rebentar de razão. Mas o som estava muito abaixo do audível e não se percebia nada do que diziam, deixando os indignados para ali a falar para o boneco. Eram quatro, os casais. Ainda mais mudos que a TV.
Corpos imóveis e inteiriçados, à excepção dos polegares, que teclavam com ardor os écrans dos telemóveis. Aqui e ali, deixavam escapar um trejeito de repúdio, um esgar de reprovação, um movimento labial de anuência, um franzir de sobrolho de desconfiança ou a ligeira deformação facial de um esforçado sorriso. Tirando isso, nem um pio, não fossem as maquinetas, já imbuídas da mandona inteligência artificial, desligar-lhes os écrans na cara.
Ia para mais de duas horas a sessão, quando um membro de um dos casais soltou um gritinho: a traquitana tecnológica ficara sem combustível. Foi uma aflição. Gerou-se ali momentaneamente um desacerto existencial e a ameaça de caos pairou sobre a placidez da sala. Mas, como que por magia, apareceu um carregador de telemóvel. E o mundo, e todo o universo com ele, voltou a levar a ordem e a harmonia aos quatro casalinhos, aos sofás e às mesitas baixitas.
O hotel respirou em paz.
