“A reforma é uma nova fase da vida – não o fim do planeamento financeiro”

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Com uma linguagem clara e acessível, Bárbara Barroso tem-se destacado como uma das principais divulgadoras de literacia financeira em Portugal. Fundadora do MoneyLab, tem ajudado milhares de pessoas a compreenderem melhor o dinheiro e a tomarem decisões mais conscientes.

Nesta entrevista exclusiva ao informarep, partilha orientações concretas para quem já está reformado ou se aproxima dessa fase da vida. Fala sobre orçamentos, investimentos, cuidados com a saúde, apoios à família e planeamento sucessório — sempre com o foco em manter a independência financeira e evitar riscos desnecessários

Quais são os primeiros passos que um reformado deve dar para organizar as suas finanças pessoais?
O primeiro passo é fazer um levantamento da sua situação financeira, ou seja, apontar todos os rendimentos (como a pensão e eventuais complementos) e as despesas fixas e variáveis. É fundamental ter um retrato financeiro, com o peso que cada despesa tem no orçamento, para conseguir fazer ajustes necessários e criar um plano de gestão mensal com objetivos claros — incluindo poupança e fundo de emergência para imprevistos.

Como pode avaliar se a sua pensão e poupanças são suficientes para manter o estilo de vida a que está habituado?
Deve analisar o seu orçamento atual e projetar despesas futuras. Um bom indicador é garantir que os rendimentos cobrem confortavelmente os gastos mensais, incluindo saúde e lazer. Se a diferença for pequena, será necessário reforçar o fundo de emergência para imprevistos, ou mesmo reduzir algumas despesas desnecessárias.

Qual a importância de ter um orçamento mensal durante a reforma? E como deve ser feito?
O orçamento é essencial para evitar surpresas e manter o controlo financeiro. Deve ser feito com base em categorias (habitação, saúde, alimentação, lazer), tendo sempre uma rubrica para poupança e imprevistos. Reavaliar mensalmente é uma boa prática.

É recomendável continuar a investir durante a reforma ou a prioridade deve ser a segurança e liquidez dos ativos?
Sim, pode investir, mas tendo em consideração que já se encontra na reforma poderá adotar uma postura mais prudente. O foco deve estar na preservação do capital, liquidez e alguma rentabilidade. Produtos com risco controlado e prazos adequados às necessidades de acesso ao dinheiro acabam por ser as boas práticas em termos de planeamento e alocação financeira. Mas claro que cada caso é um caso, e para ser rigoroso merece sempre uma análise personalizada.

Como deve um reformado preparar-se financeiramente para eventuais despesas com saúde, que tendem a aumentar com a idade?
Deve criar uma reserva específica para saúde e prever esse custo no orçamento mensal. Sempre que possível, complementar com um seguro adequado ou subsistema de saúde. Antecipar estas despesas evita depender de terceiros em momentos críticos.

Vale a pena contratar um seguro de saúde na reforma? Que aspetos devem ser avaliados antes de o fazer?
Pode ser uma boa proteção, mas deve ser bem analisado. Avalie a cobertura, idade máxima de permanência, exclusões e o custo a longo prazo. Compensa sobretudo quando há antecedentes clínicos ou se pretende evitar longas listas de espera no SNS.

Que estratégias recomenda para construir uma “almofada financeira” destinada exclusivamente a situações de doença ou dependência?
Separar uma parte do rendimento mensal para uma conta ou produto de acesso rápido e seguro. Idealmente, deve acumular o equivalente a 6 a 12 meses de despesas. Evite mexer nesse fundo de emergência exceto em situações de real necessidade.

Como manter os consumos habituais (viagens, refeições fora, pequenos luxos) sem comprometer o equilíbrio financeiro?
A chave está no planeamento. Crie um fundo anual para lazer e defina limites mensais. Procure alternativas mais económicas, como promoções ou viagens fora da época alta. É possível manter os prazeres da vida com equilíbrio.

Que conselhos dá a quem quer ajudar os filhos ou netos financeiramente sem prejudicar
a sua própria estabilidade?

Estabeleça um valor máximo de apoio dentro do que é confortável. Nunca comprometa o seu fundo de emergência nem a segurança da reforma. Ajudar é importante, mas não deve colocar em risco a sua autonomia.

Existem despesas que geralmente os reformados subestimam? Quais são os “gastos invisíveis” a ter em conta?
Sim, como manutenções domésticas, pequenos apoios a familiares, cuidados de saúde não comparticipados ou aumentos nas contas da casa. Estes gastos, quando não previstos, podem afetar o equilíbrio financeiro.

Como evitar cair em armadilhas financeiras, como propostas de crédito fáceis ou investimentos pouco seguros?
Evite decisões impulsivas, desconfie de promessas de retorno elevado e consulte sempre fontes credíveis antes de agir. Nunca forneça dados bancários por telefone, e fale sempre com alguém de confiança antes de assinar qualquer proposta.

O que pode ser feito para manter a autonomia financeira e evitar depender de familiares na velhice?
Manter o controlo do orçamento, ter um fundo de emergência e reforçar a literacia financeira. Quanto mais preparado estiver, menos dependerá dos outros. A independência financeira é um dos pilares da qualidade de vida na reforma.

Quando e como deve um reformado começar a pensar no planeamento sucessório para garantir tranquilidade à família?
O ideal é pensar nisso o quanto antes. Um testamento bem feito e uma comunicação clara com os herdeiros evitam conflitos futuros. Pode também considerar seguros ou doações em vida, sempre com apoio jurídico.

Que cuidados devem ser tidos ao lidar com fraudes, telefonemas enganosos ou ofertas de “investimento garantido” dirigidas especialmente a seniores?
Nunca partilhe dados por telefone ou e-mail, e confirme sempre a identidade de quem contacta. Fraudes bem disfarçadas existem e visam, muitas vezes, os mais velhos. Em caso de dúvida, peça ajuda antes de tomar qualquer decisão.

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