Telecontrolo na CPE, Companhia Portuguesa de Electricidade
Quando comecei a aprender História, a unidade de tempo “um século” era, para mim, um conceito muito parecido com “eternidade”. Por volta dos cinquenta anos, concluí que um século, afinal, não era tanto tempo assim, era apenas mais outro tanto do que eu já tinha vivido.
Contudo, agora que já vivi três quartos de século, o contexto da minha juventude parece ter-se desenrolado noutro planeta. Os contos infantis da minha infância começavam muitas vezes com a frase “No tempo em que os animais falavam…”. Não sei se essa frase continua em uso, mas, nos tempos em que os animais falavam, no início de 1977, após ter concluído a minha primeira tarefa na empresa EDP, fui integrado no departamento de Teleacção, que na altura se compunha de um engenheiro, um assistente técnico sénior e menos de uma dezena de técnicos para fazer manutenção dos equipamentos de telecontrolo de instalações remotas em grandes centrais e subestações da rede de transporte, bem como na sala do Despacho Nacional, onde toda essa informação era concentrada.
Esses equipamentos de telecontrolo em instalações remotas comunicavam informação em tempo real, através de canais de transmissão de dados suportados por “ondas portadoras”, campos electromagnéticos de fraca intensidade, emitidos sobre as linhas de MAT, em frequências muito mais elevadas do que os 50Hz, para transportar energia e, neste caso também, informação, quer de dados, quer de voz. Em Sacavém, esses canais usando ondas portadoras eram reencaminhados para um dos 16 pares de fios de um cabo subterrâneo pressurizado, que ligava Sacavém a uma sala num edifício da avenida Casal Ribeiro, onde cada equipamento de telecontrolo, ligado “ponto a ponto” a cada um dos equipamentos remotos, descodificava a informação recebida, afixando-a num grande painel na parede com luzinhas e mostradores analógicos e registadores em papel, que consistia em sinalizações de aparelhos (estados aberto/fechado) e medidas de MW, kV e Hz (energia, tensão e frequência) para a gestão técnico-económica do Despacho Nacional de Portugal.
O cabo era pressurizado para se ter uma indicação clara quando danificado por alguma obra de construção civil em curso no longo trajecto entre Sacavém e a Casal Ribeiro.
E não existia nenhum computador em toda esta actividade, apenas equipamentos electrónicos que, na sua maior parte, se compunham de transistores, resistências, condensadores e pouco mais, sem circuitos integrados, e montados em circuitos impressos.
O aparecimento de minicomputadores, como os da Data General e, sobretudo, da DEC, Digital Equipment Corporation, a preços razoáveis para serem integrados em laboratórios, em departamentos universitários e no controlo de processos industriais, acompanhados dos seus esquemas eléctricos e de suficiente informação para que outras empresas pudessem fazer interfaces, ficando integradas no próprio computador, abriram a possibilidade de usar computadores para tarefas em que fosse necessário e/ou conveniente adquirir, de forma automática, grandes quantidades de dados, quer para fazer cálculos, quer para os apresentar em monitores de TV e, eventualmente, para enviar sinais de controlo para processos laboratoriais/industriais.
Esta política de abertura levou vários fabricantes de equipamentos industriais a incorporar minicomputadores da DEC nos sistemas que fabricavam, desenvolvendo, por vezes, circuitos impressos especializados, que se ligavam directamente ao barramento do computador, onde também se ligavam as placas de memória, os controladores dos discos, controladores de outros periféricos, etc.
Foi o caso, por exemplo, da Brown Boveri Co., uma empresa suíça de equipamentos, fornecedora habitual da CPE, que desenvolveu e forneceu quatro sistemas de telecomando de Centrais Hidráulicas à CPE, e cujos materiais já tinham sido entregues, repousando intocados, desde então, num armazém, pois, em nenhum dos futuros centros, existia uma sala disponível para telecontrolar as centrais que iriam ser telecomandadas.


