Confiança pública enfrenta um momento desafiante

A confiança tornou-se um indicador decisivo para compreender o estado do mundo. Quando desce, aumenta a polarização; quando sobe, reforçam-se cooperação e estabilidade democrática. Hoje, Portugal — como muitos países — atravessa um período especialmente sensível deste ciclo. Segundo o Edelman Trust Barometer (Barómetro de Confiança Edelman), apenas 41% das pessoas a nível global afirmam confiar nos governos. França, Reino Unido e Estados Unidos apresentam valores ainda mais baixos. E Portugal acompanha a tendência: o Eurobarómetro mostra níveis reduzidos de confiança no Parlamento e nos partidos, muitas vezes abaixo da média europeia.

O retrato melhora quando observamos os media. O Reuters Institute Digital News Report (Relatório de Notícias Digitais do Instituto Reuters) coloca regularmente Portugal entre os países com maior confiança nas notícias, acima dos 50%. Já Estados Unidos, França ou Grécia ficam abaixo dos 40%. Ainda assim, cresce também em Portugal a procura de informação nas redes sociais: cerca de 30% recorre a estas plataformas diariamente.

A ciência mantém-se um dos pilares mais estáveis. O Wellcome Global Monitor (Monitor Global da Wellcome) indica níveis de confiança superiores a 70% em investigadores e profissionais de saúde, próximos dos observados na Alemanha, Canadá ou Japão. A forte adesão às vacinas — acima dos 90% — confirma esta relação sólida.

A transformação digital agravou desafios. O Pew Research Center (Centro de Investigação Pew) revela que mais de 60% das pessoas em países ocidentais têm dificuldade em distinguir factos de opiniões nas redes sociais. E um estudo do MIT Media Lab (Laboratório de Media do MIT), publicado na revista Science (Ciência), mostrou que notícias falsas se propagam seis vezes mais depressa do que notícias verdadeiras.

Apesar das pressões, surgem sinais de reconstrução: Noruega e Países Baixos reforçam o jornalismo público; França investe em literacia mediática; o Reino Unido alarga equipas anti-desinformação; e Portugal consolida iniciativas de fact-checking e ciência aberta.

A era da confiança é, acima de tudo, um momento de redefinição global. Entre excesso de informação e ruído digital, a forma como cada país reconstruir credibilidade determinará a qualidade da democracia nas próximas décadas.

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