João José Bichão fala com a tranquilidade de quem já não precisa de provar nada. O discurso é pausado, atento, sem urgência. Ao longo da conversa, vai revelando uma forma de estar construída ao longo de décadas, onde a reflexão, a curiosidade intelectual e o convívio ocupam um lugar central.
Como descreve hoje a forma como vive e valoriza o seu tempo?
Hoje, na reforma, vivo o tempo sem grandes pressas. Aprecio muito ter tempo e vivo bem sem ter nada que fazer. Gosto de facto de ter pouco que fazer. Gosto de pensar e tentar compreender o que se passa à volta. Hoje valorizo muito essa possibilidade de viver a um ritmo mais baixo, sem a sensação de estar sempre sob pressão.
Os meus dias vão acontecendo. Não tenho praticamente agenda e isso não me inquieta. Lembro-me muitas vezes do meu pai, quando se reformou. Verificou-se que naturalmente vivia bem a não fazer nada. As pessoas diziam-lhe que isso seria uma chatice, ao que ele respondia que não era chatice nenhuma.
Qual foi a maior mudança na sua relação com o tempo nesta fase da vida?
No meu caso, a maior mudança foi deixar de ter de ir trabalhar todos os dias. Sempre dormi um pouco mal e, quando isso acontecia, às vezes meses seguidos, o dia seguinte tornava-se muito difícil. Antes não havia alternativa, era preciso ir trabalhar.
Com a reforma, o não ter de ir ao trabalho passou a ser uma grande vantagem. Se durmo menos, posso recuperar em casa, descansar. Não é coisa pequena. E isso, para mim, é uma das maiores conquistas desta fase.
Que prioridades ganharam mais importância para si nos últimos anos?
Reformei-me há muito tempo e as prioridades foram mudando ao longo dos anos. Numa primeira fase, cuidei mais do corpo. Comecei a fazer exercício, a ir ao ginásio. E a ler mais.
Hoje as principais prioridades são a saúde e os filhos. Há, ainda, algo que valorizo muito, talvez mais do que imaginava: a paz de espírito. Aprecio ter calma, observar o que se passa e fazê-lo, sem grandes julgamentos, com menos vontade de ter razão e mais vontade de compreender. E essa compreensão requer uma atitude calma que possibilite o controlo da reação.
Há algo a que hoje diga “não” com mais facilidade para proteger o seu tempo?
À televisão, à internet e às redes sociais. Parcialmente claro. Não apenas para proteger o tempo, embora isso também conte, mas sobretudo para não me deixar arrastar por coisas que não escolhi. Não é apenas uma questão de horas, é uma questão de saúde mental. Há conteúdos que entram, criam ruído, deixam marcas e alimentam a ansiedade. Mas utilizo regularmente o YouTube, nas pesquisas referentes a matérias que me interessam pois é de facto uma grande ajuda, e alguns agentes de IA, sobretudo em tarefas de esclarecimento técnico.
Que rotinas diárias lhe dão mais equilíbrio e tranquilidade?
Tratar de pequenas coisas, como cozinhar, manter a casa, resolver o que é preciso. Quando feitas com calma e sem pressa, as coisas simples acabam por ser descanso e tranquilizam.
Como procura equilibrar as rotinas diárias com o descanso e os momentos que lhe trazem bem-estar?
As atividades do dia a dia não colidem com o descanso. É certo que por vezes faço, como antigamente, uma lista do que tenho a fazer nesse dia, o que facilita muito as coisas. O bem-estar emerge, sobretudo, do poder pensar com calma, compreender melhor o que me rodeia e estudar assuntos que me interessam, tenham eles utilidade imediata ou não. Ter esse espaço para compreender melhor o mundo dá-me muita satisfação e tanto mais se isso resulta em boas conversas.
Que atividades ou interesses lhe dão mais satisfação atualmente?
O convívio é, de longe, a mais satisfatória. Infelizmente vivo um pouco só, e isso enforma como vivo os dias. Gosto, como a maioria de nós, de conversar, de estar com pessoas. A minha limitada atividade na AREP é particularmente gratificante. Dou ajuda na área da informática, mas o mais relevante é o convívio que essa atividade me proporciona. É claro que gosto muito de contribuir para as soluções. Sinto-me integrado e útil e isso é muito bom para mim.
Que papel têm a família, os amigos ou a comunidade na forma como organiza os seus dias?
Hoje, a minha família são sobretudo os meus filhos e netos. Tenho duas filhas e um filho. As minhas filhas vivem longe, no estrangeiro. O meu filho vive no Alentejo. As filhas vêm nas férias, o filho todas as semanas. Cada um seguiu naturalmente o seu caminho, mas nunca longe de mim. Há preocupação, claro, e a distância não facilita.
Falamos com irregularidade, sem horários marcados, quando apetece e quando faz sentido. Tenho três netos, todos rapazes, dois na Noruega e um nos Estados Unidos. A distância não diminui o afeto. Acompanho o crescimento deles, à distância, mas, claro, não é a mesma coisa que estar ao pé. Cada vez que os encontro estão um palmo mais altos, com voz mais grossa, botas maiores e bigodes inesperados. Só não mudam os sorrisos, que guardo no peito. Falamos também sem horários marcados, o que não seria mau.
Todas as manhãs encontro-me no café com amigos vizinhos. Às segundas-feiras, reúno-me à distância com antigos colegas de trabalho, também amigos. Falamos de tudo e de nada, do tempo, da política, das memórias, do universo, e endireitamos muita coisa que está mal. Estas conversas são uma grande satisfação. De vez em quando, há almoços de grupo com antigos colegas de trabalho. São encontros simples, cheios de sentido.
Pode partilhar um momento recente em que tenha sentido, de forma especial, que está a viver “com menos pressa e mais escolha”?
Não me lembro de nada singular. Atualmente vivo normalmente com menos pressa. Posso em geral descansar quando preciso, ter uma manhã simples no café, uma tarde de conversa com amigos ou até um dia sem nada em particular.
Que conselho deixaria a quem ainda vive sempre a correr e sente que não tem tempo para si?
Não arrisco, porque não sei. E também porque tenho muito respeito pelas pessoas que andam à pressa. Andar à pressa é uma necessidade, uma imposição das circunstâncias.




