A força de recomeçar numa cidade nova

Há fases que nos obrigam a recomeçar em várias frentes ao mesmo tempo. Uma nova cidade, um novo trabalho, novas responsabilidades e a necessidade de encontrar equilíbrio entre a vida familiar e profissional. Quando olho para trás, percebo que foi um desses momentos que mais me marcou.

Há cerca de 40 anos, vivia em Setúbal e era mãe de uma criança pequena. Como tantas mulheres da minha geração, procurava conciliar as exigências da maternidade com a vontade de construir um percurso profissional estável. Não era simples. Os dias eram feitos de horários apertados, responsabilidades familiares e preocupação com o futuro.

Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de integrar a então DODS, através de um contrato a termo. O desafio era muito concreto: criar um arquivo técnico no Departamento Comercial. À primeira vista, poderia parecer apenas uma função administrativa. Para mim, porém, significava muito mais. Era uma porta que se abria e uma oportunidade para provar que era capaz.

Entrava numa área que desconhecia. Mais do que executar tarefas, era necessário organizar processos, compreender documentos, criar método e construir uma forma de trabalho útil para a equipa.

Mas o desafio não era apenas profissional. Encontrava-me numa cidade que conhecia pouco e longe da rede de apoio com que antes podia contar. Não tinha familiares ou amigos por perto que me ajudassem nas dificuldades do dia a dia. Havia momentos em que sentia o peso da responsabilidade e a consciência de que dependia de mim.

Ao mesmo tempo, continuava a desempenhar o papel mais importante da minha vida: ser mãe. Cuidar de uma criança pequena exige presença, energia e resposta constante. Conciliar essa missão com um novo emprego obrigou-me a uma organização rigorosa e a uma determinação que, na altura, talvez nem soubesse que tinha. Hoje, quando recordo esse período, pergunto-me como consegui gerir tudo. Na altura, não existia muito tempo para pensar. Era preciso avançar, resolver cada problema à medida que surgia e tentar dar o melhor em todas as frentes. Talvez tenha sido essa necessidade de continuar que me permitiu descobrir capacidades que desconhecia.

Com o passar do tempo, aquilo que parecia um enorme desafio começou a transformar-se numa oportunidade de crescimento. Cada dificuldade ultrapassada aumentava a confiança. Cada problema resolvido mostrava-me que era capaz de enfrentar situações mais exigentes. Aos poucos, a insegurança deu lugar à autonomia.

Mais do que um percurso profissional, foi uma verdadeira aprendizagem de vida. Desenvolvi capacidade de adaptação, aprendi a confiar mais em mim própria e compreendi o valor da perseverança. Percebi que muitas vezes somos mais fortes do que pensamos e que os momentos difíceis podem revelar qualidades inesperadas.

Ao longo das décadas seguintes, levei comigo essas aprendizagens. A confiança para aceitar novos desafios, a serenidade para enfrentar momentos de pressão e a capacidade de procurar soluções nasceram dessa fase. O maior ganho não foi apenas profissional. Foi humano. Ganhei maturidade, resiliência e uma forma mais confiante de olhar para a vida.

A minha história não é feita de grandes acontecimentos ou cargos de destaque. É feita de pequenas conquistas diárias, de desafios superados e da determinação de seguir em frente quando o caminho parecia difícil.

Quarenta anos depois, continuo a acreditar que os momentos que mais nos transformam são aqueles que nos retiram da zona de conforto. E sei, por experiência própria, que coragem não significa ausência de medo. Significa continuar a avançar, apesar dele.

Elisa Ferro

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