Há quinze anos, Humberto Amaral dedica parte do seu tempo ao voluntariado na AREP. Nesta conversa, partilha as motivações, desafios e aprendizagens de um percurso marcado pela escuta, responsabilidade e proximidade. O seu testemunho mostra como ajudar quem mais precisa também transforma quem ajuda, fortalecendo laços, combatendo a solidão e construindo uma sociedade mais humana, atenta, solidária e presente.
O que o motivou a dar o primeiro passo para se tornar voluntário?
Não houve uma motivação planeada. Ao olhar para trás, surgem-me imagens da pobreza absoluta da aldeia onde cresci, marcada pelos efeitos da guerra. Talvez a semente da ajuda ao próximo tenha nascido aí, ainda que tenha ficado adormecida durante muitos anos. Nunca fiz planos para ser voluntário. Tive uma vida inteira de trabalho, iniciada aos 11 anos e terminada aos 70, num percurso exigente que quase me levou ao esgotamento. Foi quando começava a descobrir um ócio ativo, já livre das responsabilidades profissionais, que fui desafiado a integrar a AREP. Desde então, sou voluntário há 15 anos.
Pode partilhar uma experiência marcante enquanto voluntário na AREP?
Guardo muitas memórias, quase sempre ligadas ao agradecimento sincero dos associados. É gratificante perceber que a nossa ajuda pode fazer diferença no combate à solidão, no acesso à saúde, na quebra do isolamento e no apoio domiciliário ou em residências seniores. Recordo, em especial, o telefonema de uma associada que agradecia, emocionada, uma ajuda que lhe permitiria, pela primeira vez num Natal, ter acesso a um bem essencial. Foi uma corrente invisível de felicidade mútua, sentida por toda a equipa, que nunca esquecerei.
Que impacto teve o voluntariado na sua vida pessoal?
Quando aceitei o desafio, pensei apenas em dar o meu melhor, sem grandes expectativas. Rapidamente percebi que o voluntariado é exigente e implica responsabilidade, dedicação e compromisso. Quem não o encara assim dificilmente compreende a sua verdadeira dimensão. Tive de ajustar a minha disponibilidade e reorganizar prioridades, também familiares. Com o tempo, ganhei uma riqueza inestimável, feita de partilhas e experiências que me acompanharão pela vida.
Como organiza o tempo entre compromissos pessoais e voluntariado?
Continuo a gerir o tempo com processos herdados da vida profissional, começando pela pontualidade. Calendarizo as atividades pessoais, incluindo a promessa feita à minha mulher de que, reformado, assumiria a cozinha, e, tanto quanto possível, também as obrigações como voluntário, ao dia e à hora. A organização é fundamental para conciliar compromissos. Não me lembro de ter falhado ao que prometi por incúria.
Que conselhos daria a quem pensa começar a fazer voluntariado?
Tudo depende das circunstâncias pessoais e do tipo de voluntariado. Ainda assim, considero essencial o sentido de missão, a disponibilidade de tempo, a responsabilidade e o compromisso. No trabalho com pessoas idosas, é indispensável uma profunda capacidade empática, feita de compreensão, escuta, paciência e respeito pelo ritmo de cada pessoa. O voluntário deve colocar-se no lugar de quem apoia, para compreender fragilidades, carências e necessidades. Ser voluntário exige competências e qualidades próximas das de um profissional, mas com uma dimensão humana própria: estar presente, ouvir, acompanhar e ajudar com cuidado genuíno.
Como vê o papel do voluntário numa sociedade mais solidária?
A intervenção voluntária sempre teve resultados significativos e assume hoje uma importância ainda maior. O voluntariado pode ajudar a reduzir desigualdades, fomentar a coesão social e contribuir para um tempo mais solidário. Mantém-se a esperança de que a humanidade seja capaz de alcançar uma sociedade mais justa, mais livre e mais atenta aos que mais precisam.

