Crónica

A vida da vida em tempos diferentes

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Henrique Pinto

18 de Maio, 2026

Em finais da segunda década do século XX o pároco duma freguesia do norte de Portugal, tendo receio de não ser capaz de registar para a posteridade hábitos e tradições do Povo da sua terra, disse assim:

Sentia, é certo, não obstante essa minha inhabilidade, uma grande affeição á terra que me viu nascer, ás suas tradições, aos seus costumes, ao seu campanário aos seus campos e aos seus valles, a tudo aquillo, emfim, a que posso chamar a minha terra natal á qual estão ligadas as mais gratas recordações da minha vida e que eu desejava vêr grande e devidamente apreciada.

E sob este desejo palmilhou caminhos, campos, montes e aldeias. Ouviu testemunhos, fez recolhas, ordenou-as e escreveu um livro a que deu o título: Perosinho / Monografia.

É um testemunho magnífico, social, científica e indelevelmente marcado pelas sombrias profundezas do tempo, mas hoje, aqui e agora, entreaberto mas não dissecado. Porque não é esse o objetivo e também porque não tenho, ao contrário do autor, o douto e necessário conhecimento. Vou, tão só, mostrar duas maneiras de tratar a mesma doença. Como se procedia no antanho e como se pode fazer agora, à luz de exemplo pessoal recente.

Escreveu o autor do livro citado:

Talhar a “zipéla” (erysipela). A pessoa que talha toma na mão um raminho d’uma certa urze do monte, a quem o povo chama queiroz, e molhando-o em azeite e vinagre, faz com elle cruzes sobre a pessoa doente, dizendo: “Jesus e nome de Jesus; Jesus e nome de Jesus. O Senhor, quando pelo mundo andou, Pedro Paulo encontrou e Elle lhe perguntou: – Pedro Paulo d’onde vens? – Senhor, eu venho de Roma. – Pedro Paulo, que vae por lá? – Senhor, muita zipela, zipéla e zipelão. – Pedro Paulo, torna lá, corta e talha com oliva, água da fonte, esparto do monte e manda-o para o mar, que lá é o seu logar. P. N. e A. M. (Rezava-se um Pai Nosso e uma Avé Maria).

Neste tempo fui a consulta médica especializada, mostrei as pernas muito engrossadas, duras e com extensas manchas vermelhas entre os joelhos e os calcanhares. Mandaram-me fazer um Eco-Doppler venoso dos membros inferiores, o qual revelou:

Ausência de sinais de trombose… Ausência de insuficiência valvular… Presença de lesões linfangíticas (erisipela) no membro inferior direito.

Tratamento: penicilina, antibióticos, pomada, pernas levantadas com o calcanhar acima do nível da anca. Tudo feito sem perda de tempo, a fim de vencer a bactéria que anda por aí e em nós penetra quando encontra uma abertura na pele.

Como o tempo anda tão devagar! Levou milénios para a ciência chegar a este conhecimento! E como nós não sabemos nada de nós! E como disto gostaria de tomar conhecimento o autor do livro que me motivou! É em sua homenagem esta divulgação.

Aos exegetas peço desculpa pela pobreza das minhas palavras, mas acho que há quem irá gostar de ver comparados os dois tempos históricos e humanos. Certo, certo, o autor do livro, Presbytero José Ribeiro d’Araujo.

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