Histórias da Noite
O dia não tinha sido nada fácil. Do nada, uma série de avarias que mobilizaram uma parte substancial dos nossos recursos, que já nessa altura eram escassos (hoje está muito pior). Para a resolução das mesmas, no decorrer da localização do troço em avaria, seria necessária uma caixa de transição óleo/seco de 15 KV para cabo monochumbo. Como era material descontinuado, e o seu stock reduzido, havia necessidade de se ir ao armazém de Sacavém levantá-lo. Como os nossos recursos eram escassos, disponibilizei-me para o ir levantar ao armazém e levá-lo ao local da avaria numa carrinha de caixa aberta. E lá fui eu.
Já tinha em cima de mim umas boas horas sem descanso, pelo que o meu estado físico e mental não eram dos melhores, lembro-me que, ao atravessar a ponte Vasco da Gama, no horizonte apareciam monstros e deuses a dançar no céu, interrompidos por travagens e zigue-zagues na fila do tabuleiro.
Do armazém, depois de cumpridas as formalidades normais dessa situação, lá fui eu para o local da avaria numa das praças centrais de Almada. A noite já ia alta e a situação complicou-se, dado que o local da avaria era numa zona de uma pavimentação nobre, tipo pedra mármore, que requeria uns cuidados próprios para abertura da vala, pelo que era necessário continuar na manhã seguinte, acompanhados pelos serviços camarários.
No regresso a Setúbal, feito pela A2, que nessa altura estava em obras de alargamento de duas para três faixas, entre as portagens de Coina e saída para Setúbal, as duas faixas em uso foram reduzias ao mínimo, com a supressão das bermas com zonas de escape de mais ou menos 500 metros, ou seja, um túnel apertado e poucas escapatórias.
A madrugada já ia alta e um ligeiro nevoeiro ajudava “à festa”, dificultando a circulação. Nessa altura, o cansaço veio mais uma vez ao de cima, as pálpebras pareciam pesar toneladas, indo garantidamente uns bons metros de “janelas fechadas”. Ao aproximar-me ao veículo da frente só me lembro de ir já em cima dele e ver uma cara de espanto, ou mesmo de medo, do passageiro do banco de trás. Um chega para lá foi inevitável.
Ora, era expectável uma paragem para se verificarem os estragos e preencher a papelada para dar seguimento ao incidente, mas parar onde? O funil era apertado. Talvez na próxima escapatória, bem, talvez na estação de serviço da A2 de Palmela. Nada, pelo que questionei o Jacinto e o Catalão, que iam mais a frente para Subestação de São Sebastião:
– Viram um carro, julgo que preto, com uma amolgadela atrás, a passar por vocês?
– Não, porquê?
– Dei-lhe um toque por trás e não parou: continuou a andar ainda mais depressa.
– Oh, pá, estás é louco!
Na chegada ao portão da Subestação de São Sebastião lá estavam os meus companheiros, com ar de espanto.
– Oh, pá, tens o radiador a deitar fumo. Bateste mesmo pois! E o outro carro?
– Sei lá: pôs-se a milhas.
Em princípio, pensei que os tipos, ou não teriam o veículo com toda a documentação, ou o condutor não estava habilitado e não queria confrontação com a polícia.
Mais tarde, calmamente, outra hipótese me ocorreu: de noite com várias aproximações de um veículo robusto e depois um chega para lá, talvez pensassem que estavam em presença de um ”carjacking”.
Na participação do incidente ao seguro, referi-o como um toque numa viatura desconhecida, para o caso de surgir alguma denúncia. Mas, até hoje, nada. Afinal, qual seria o motivo da fuga?
