Peripécias das interligações a leste
Com a invasão da Ucrânia pela Rússia recordei duas viagens sobre a análise de possíveis interligações Oeste – Leste:
Em 1997 fui a Kiev numa missão sobre a possível interligação de uma bolsa de produção – rede da Ucrânia ao sistema ocidental (o bloco Polónia, Hungria e Checoslováquia já estavam separados do sistema da ex-URSS e na fase de testes de interligação com o sistema ocidental, mas os ucranianos tinham em risco um contrato de exportação para a Hungria). Fomos recebidos pelo Sec. de Estado de Energia (e depois pelo Ministro). Em todos os contatos faziam gala em mostrar a preferência pelo Ocidente e contavam algumas anedotas depreciativas sobre a “ocupação” russa. Tivemos um jantar interessante e com bom vinho francês. A bolsa acabou por ser permitida, mas apenas em vésperas do início da invasão russa (fevereiro de 2022) tiveram interligação plena! Conseguir isso tem sido sinal de, mais tarde, integração na UE…
Nesse mesmo ano fiz uma ida a Minsk para participar na reunião de um grupo sobre a interligação plena Oeste – Leste. Tinha à minha espera no aeroporto o Diretor da Rede de Transporte bielo-russa. Tentei manter conversa em inglês, mas nada. Fizemos os 50km até ao hotel em silêncio. O grupo já tinha partido para o jantar de boas-vindas. Tentei saber na receção se era possível apanhar um táxi para me juntar. Ninguém entendia nada, até que uma senhora da receção saiu a correr para o exterior. Que teria feito de errado? Entretanto o meu contraparte continuava estático com a minha mala na mão. Afinal, reentrou com um senhor que falava inglês e que me explicou a hora a que devia estar no dia seguinte para ir para a reunião (era o Motorista do Embaixador de Israel, a jantar no hotel). Tudo bem e decidi ir para o quarto. Fui acompanhado pela minha escolta que, de forma diligente, pousou a mala e disse: GIRLS… Fiz sinal de que me ia deitar.
Na reunião os Países da ex URSS eram liderados por um ex Ministro russo e do nosso lado por um Diretor da EDF. A progressão foi nula e participei depois em algumas cenas gagas:
- Conferência de imprensa com o Ministro bielo-russo, em que o nosso coordenador quis dar um sinal de democracia e pediu-me para o acompanhar, além de um outro colega; os jornalistas queriam saber da rapidez da interligação e nós limitamo-nos a dizer generalidades simpáticas, mas fizeram a indelicadeza de nada traduzirem para inglês daquilo que depois o Ministro disse (no regresso ao hotel, o nosso guia percebeu o desagrado e assegurou que apenas tinha respondido a perguntas sobre se as tarifas iam descer);
- Jantar de gala em que a bebida era água e vodka, com muitos discursos alternados sobre a paz e boa vontade mundial, sempre finalizados com a bebida do cálice de vodka (de ambos os lados, vários acabaram bêbados; no meu caso lá fui discretamente pondo água no cálice de vodka…).
O grupo continuou a reunir-se e chegou a fazer estudos técnicos sobre a total interligação, mas nunca foi além disso até hoje. Já se notavam, em 1997, diferenças de atitude.
