Crónica

Viver e recordar

Home
Henrique Pinto

26 de Janeiro, 2026

A marcha da nossa vida faz-se de muitos adágios como se faz de originalidades, de imprudências, de magnanimidades de imperfeições, também de sonhos e um dia, porque “recordar é viver”, expomo-nos em íntima comunicação para que todos se conheçam e caminhem juntos.

Embora tudo se constitua em património exclusivo, gravado na fita do tempo da vida de cada um de nós e da qual somos ciosos guardadores intemporais, umas vezes dá-nos para silenciá-la; outras vezes dá-nos para recordá-la a nós próprios; outras vezes dá-nos para partilhá-la com amigos e até com quem nem sequer conhecemos. Somos assim, seres simultaneamente perfeitos e imperfeitos sempre em construção. Hoje, a mim, após seis décadas de guardador, deu-me, para devaneio de nós todos, o desplante de materializar aqui estas memórias:

Estávamos em 1963, eu tinha regressado do serviço militar em Angola; estava a trabalhar na Oficina Mecânica, na Barragem de Bemposta e procedia à reparação das lagartas duma escavadora “Marion”. A operação decorria numa área espaçosa da oficina e eu estava absolutamente absorvido com a tarefa. Estava? Devia estar. A partir dum momento imperceptível já só lá estava a desprezível matéria de que somos feitos!

Eu e as ferramentas com que trabalhava estávamos na distante terra africana, donde tinha acabado de chegar depois de passado aquele tempo que o Estado roubou à juventude da minha geração. E que fazia eu “lá”, com as minhas ferramentas, naquela circunstância, perguntar-se-á? Estava no terreiro dum musseque a cantar e batucar merengues com as ferramentas do meu trabalho. E tal foi a entrega e demorada a tarefa que não dei por mim, com toda a oficina, incluindo o chefe, o Sr. Francisco da Luz, com a sua bonomia e mãos cruzadas no peito, em círculo, em silêncio, impávidos, a pensarem não sei em quê! Até que comecei a ver, em meu redor, no “terreiro” em que me encontrava, pés calçados! Era impossível “ali” haver pés calçados. Então intuí, subindo lentamente o olhar, por onde pairava o meu espírito; e fui fazendo-o regressar à matéria que havia abandonado. E aí o sonho acabou e todos, sem qualquer inquirição, regressamos às nossas tarefas, ficando-me a saudade de sonhar e a alegria de todos eles recordar nos convívios com o Alfredo Galveia.

Estoutra memória que quero recordar foi-me recentemente avivada por uma notícia em que se informava o grande público de que em laboratório se havia conseguido obter mais energia do que aquela que foi necessária consumir para obter aquele efeito.

Isto fez-me recuar aos tempos da Barragem de Carrapatelo e ao projecto, chamado “motocontínuo”, em que o nosso querido colega Antero andou atarefado durante muito tempo e em cujas demandas se desdobrava, empenhadíssimo na sua convicção. Ele era um plano global da máquina a construir; ele era um croquis de cada peça a trabalhar na serralharia, na forja ou no torno mecânico; e nós a vermos crescer uma coisa que não éramos capazes de entender, mas que duma forma carinhosa todos íamos alimentando, embora sem convicção e muitas vezes sem a brevidade requerida.

E a máquina não funcionou por uma única razão, segundo o nosso querido colega e amigo: para a última peça, a fabricar no torno mecânico, ele não obteve a anuência do Valeriano, nem do Teixeira, nem do “Tono Caracol”!

Mas que o sonho do “motocontínuo” continua na cabeça dos homens, até dos cientistas, lá isso continua.

Agora, uma pequena história de astúcia e hilariedade: no Bairro do Barrocal do Douro foi construído, equipado e posto ao serviço da população residente, um Centro Comercial. Passado um “tempão” a balança de serviço avariou pelo que foi pedida intervenção à oficina mecânica para a sua reparação, destacando-se para a tarefa o Astorga Viana, homem esperto, sempre sagaz a tirar vantagem de situações e muitas vezes também “velhaco” nas brincadeiras com os colegas.

Qual era a avaria da balança, ele nunca a revelou, mas apesar dela se repetir uma vez em cada mês, o Astorga sempre a deixava a trabalhar e tanto bastava para não levantar suspeitas de incompetência.

Chegada a época das férias de Verão, também ele se ausentou do Bairro e da oficina; porém, quando regressou, logo no primeiro dia perguntou aos colegas se a balança tinha avariado na sua ausência. Que sim e que o Romão Pescador, ao tempo ainda jovem e sem maroteira debaixo da pele, é que foi lá repará-la.

Então, o nosso homem foi junto deste colega e perguntou-lhe:

– O que é que tu fizeste na balança?

– Coloquei o dente em falta no disco da balança.

– Ai sim? Então agora vai comer da roda dentada.

É que o Astorga, sempre que lá ia reparar a balança passava lá boa parte duma tarde, comendo e bebendo um bom petisco que o Centro Comercial oferecia em troca daquele trabalho gratuito. E tinha razão porque a balança nunca mais avariou.

Scroll to Top