Preparem-se para uma história notável, que nos leva à bacia do rio Zêzere e ao nascimento de um dos maiores feitos de engenharia em Portugal. Tudo começou em 1946, com a ordem de Salazar para a construção de três barragens no rio Zêzere: Castelo de Bode (1951), Bouçã (1955) e Cabril (1954).
A construção da barragem iniciou-se em 1945 e foi dada por terminada em 1951, sob a direção do projetista eng. André Coyne. A empresa construtora foi a Moniz da Maia & Vaz Guedes.
Para os mais curiosos dos aspetos técnicos, há que referir que a barragem é de betão, por gravidade, mas com curvatura. A altura máxima acima da fundação é de 115 metros. A cota do coroamento é de 124,3 metros e o comprimento do coroamento é de 402 metros. As fundações são de gneisse e micaxisto. A barragem tem um volume total de betão 430 000 metros cúbicos.
A construção da Barragem de Castelo de Bode, que na época se tornaria a maior central hidroelétrica do país, foi um período de grande entusiasmo e otimismo. O país estava a construir algo grandioso e a energia que dali adviria prometia um futuro mais brilhante.
Um dos momentos mais espetaculares desta obra foi, sem dúvida, o transporte dos grupos geradores, em 1950. Pensem nisto: um camião Willeme W200, encomendado especialmente para esta tarefa, único no mundo, com 8 eixos e uns impressionantes 20 metros de comprimento. Esta máquina colossal empreendeu uma viagem épica desde Lisboa, transportando cargas de mais de 70 toneladas e com 9 metros de diâmetro. A jornada durou um mês, um verdadeiro teste à engenharia da época e à determinação de muitos trabalhadores nela envolvida.
Dá-se conta da curiosidade que tal transporte suscitou, a ponto de se terem organizado excursões para o verem avançar, no seu passo de caracol, num trajeto pautado por inúmeras dificuldades. Houve a necessidade de cortar árvores centenárias, de reforçar estradas, de improvisar pontes e, na passagem, o “monstro” derrubou muros e postes. Cansado do peso que transportava, avariou mais do que uma vez até chegar ao destino.
Finalmente, no dia 21 de janeiro de 1951, a Barragem de Castelo de Bode foi oficialmente inaugurada, contando com a presença de figuras proeminentes, como Oliveira Salazar e o Presidente da República, Marechal Carmona. Foi um marco para o país.
A origem do nome é curiosa e encantadora. Diz a lenda que alguns engenheiros, enquanto estudavam a bacia, depararam-se com uma rocha que apresentava um desenho natural de um castelo e a cabeça de um bode. Ao pedirem opiniões para a denominação da barragem, a sugestão da pedra prevaleceu. Um acidente, que se torna de interesse histórico num projeto tão monumental!
Com a entrada em funcionamento de Castelo de Bode, a antiga e poluente Central Tejo (agora transformada em Museu da EDP), que funcionava a carvão, foi finalmente substituída na produção de energia para Lisboa. Isto não foi apenas um avanço tecnológico, mas também um passo importante para a melhoria da qualidade ambiental da capital.
Na altura da sua construção, a Barragem de Castelo de Bode foi amplamente reconhecida na Europa como “a obra do século em Portugal”. O legado da barragem não se ficou pela eletricidade. Em 4 de junho de 1987, nasceu o maior empreendimento de abastecimento de água em Portugal: o Subsistema de Castelo de Bode. Depois de aquedutos históricos como Águas Livres, Alviela e Tejo, foi este novo sistema que resolveu os persistentes problemas de abastecimento de água a Lisboa. Um verdadeiro salva-vidas para a cidade.
No entanto, um projeto desta envergadura não veio sem custos. Uma parte significativa do concelho de Vila de Rei foi submersa, incluindo as suas melhores terras de cultivo e oito povoações. Nas zonas de Tomar e Abrantes, a submersão afetou principalmente alguns terrenos de cultivo. É um lembrete do equilíbrio entre progresso e impacto local.
Convite aos sentidos

Para além dos seus feitos de engenharia, a albufeira de Castelo de Bode oferece uma variedade de pontos turísticos com paisagens deslumbrantes e atividades lúdicas. Mas a verdadeira descoberta está na gastronomia local, que tem raízes profundas na história da região.
A culinária local remonta aos tempos do Rei D. Carlos, conhecido pela sua paixão pela caça ao javali e pela excelência da gastronomia local. O leitão e as famosas tigeladas sempre ocuparam um lugar de destaque. Com o passar do tempo, novas iguarias e receitas foram surgindo, enriquecendo ainda mais a oferta.
Hoje, destacam-se pratos como o cabrito assado, o peixe fresco e o lagostim do rio, sempre acompanhados pelas típicas migas. E para adoçar o paladar no final da refeição, não percam a oportunidade de provar a intrigante mousse de favas ou o reconfortante pudim de abóbora e nozes.
Os bolos regionais “Bons Maridos” e “Boas Esposas” são perfeitos para um lanche reconfortante. Mas, sejamos honestos, como tudo na vida, só funcionam se bem equilibrados, como um bom casamento, mas sem os dramas.
Nos dias de hoje, a região celebra o seu património gastronómico através de vários festivais. Temos o Festival Gastronómico das Migas, em janeiro, a Mostra e Feira de São Brás, em fevereiro, o Festival do Lagostim de Rio, em abril, e o Festival Gastronómico “Vai à Fava”, em maio. Uma verdadeira jornada culinária ao longo do ano.
Não há nada melhor do que visitar esta região e deixar-se levar pelas paisagens, pela simpatia das suas gentes e, claro, pela sua gastronomia riquíssima.
Castelo de Bode e a sua magnífica albufeira são um destino verdadeiramente maravilhoso, esperando por si para ser descoberto e
degustado!
Arnaldo Cordeiro

