A minha ligação à EDP atravessa mais de quatro décadas de mudança, desafios e aprendizagem. Quando olho para trás, não recordo apenas os cargos que ocupei ou os projetos em que participei. Recordo, sobretudo, as pessoas com quem trabalhei, os momentos partilhados e os valores que fui consolidando ao longo da vida.
Há 40 anos, vivia em Lisboa, cidade que se tornou a minha terra adotiva desde o início da atividade profissional. A EDP atravessava então uma fase exigente e decisiva. Reorganizava estruturas, definia respostas e preparava-se para acompanhar a evolução de um setor energético em transformação. Foi nesse contexto que, em 1985, integrei a Direção Operacional de Equipamento Térmico. Recordo esse período como uma etapa de grande dinamismo. Havia a consciência de que estávamos a participar em algo importante para o futuro energético do país. Trabalhei com profissionais qualificados, muitos dos quais se tornaram amigos e continuaram presentes na minha vida para além do contexto profissional.
Ao longo dos anos, vivi experiências que nunca imaginei quando iniciei a carreira. Uma das mais marcantes aconteceu em 1985, quando fui surpreendido com a nomeação para Diretor da Direção de Equipamento Térmico pelo então Presidente da EDP, Engenheiro Raul Bessa. Essa responsabilidade permitiu-me acompanhar projetos de relevância nacional, como a fase final da construção da Central Termoelétrica de Sines e o lançamento da Central a Carvão do Pego.
Foram anos intensos e enriquecedores. Cada decisão tinha impacto, cada desafio obrigava a encontrar soluções e cada projeto reforçava a noção do serviço público que prestávamos. Guardo também com significado a participação no Terminal de Carvão de Sines, onde estive envolvido nas negociações e, mais tarde, na administração da Portsines. Hoje reconheço a importância dessa infraestrutura para garantir o abastecimento das centrais térmicas.
A minha carreira cruzou-se ainda com momentos decisivos da história da EDP, incluindo a criação do Grupo EDP, liderada por Silva Correia. Como acontece nas grandes transformações, o processo gerou dúvidas, mas acabou por se afirmar como uma das mudanças relevantes da empresa. Mais tarde, no final da década de noventa, fui eleito para a administração do Grupo EDP, experiência que me permitiu conhecer diferentes áreas da organização e compreender a complexidade de gerir uma empresa tão presente na vida dos portugueses.
Apesar destas responsabilidades, nunca acreditei que o valor de uma carreira se medisse apenas pelos cargos ocupados. As funções passam e os projetos terminam, mas permanecem as pessoas e o impacto que conseguimos ter na vida dos outros. Por isso, guardo carinho especial pelos 13 anos em que tive a honra de liderar a AREP. Foi um tempo de continuidade, proximidade e serviço, que me permitiu manter viva a ligação a uma comunidade que sempre considerei minha. Com muitos voluntários, trabalhámos para consolidar a Associação e reforçar o seu papel junto dos reformados e trabalhadores da EDP e da REN.
Ao longo deste percurso, aprendi uma lição essencial. Ainda jovem economista, percebi que títulos, cargos e distinções têm valor relativo. O que faz a diferença é compreender as pessoas, ouvir perspetivas, respeitar opiniões e liderar com humanidade. Hoje, sinto gratidão pelas oportunidades, pelos desafios e pelas pessoas que encontrei. A vida constrói-se através das relações humanas. E são essas relações, mais do que qualquer projeto ou cargo, que continuam a dar sentido a uma história feita de compromisso, responsabilidade e serviço aos outros e à vida.

