Quantos de nós já não sentimos um desfasamento entre a idade percebida e a idade cronológica? Tal resultará, em parte, de alguns atributos que enquanto sociedade associamos a fases de vida, nos quais nem sempre nos revemos. Mas, o que podemos esperar com o envelhecimento? Envelhecer será necessariamente doença?
Enquanto para outros períodos de vida, como a infância e a adolescência, podemos prever intervalos temporais para determinadas alterações, os chamados marcos de desenvolvimento, com o envelhecimento, não é tão evidente.
As alterações que decorrem do envelhecimento são heterogéneas, sendo um processo complexo e distinto entre uma pessoa e outra, e, inclusivamente, entre os diferentes órgãos da mesma pessoa. É sabido que no ritmo de envelhecimento influem não só fatores genéticos, como fatores ambientais e de hábitos de vida, assumindo estes últimos um papel relevante na forma de envelhecer. Este aspeto é uma boa notícia, pois podemos ter um papel ativo no controlo de hábitos de vida. A prática regular de exercício físico, uma alimentação equilibrada, a qualidade do sono e a socialização são fatores que podemos controlar. Se já todos ouvimos falar da importância dos primeiros, muitas vezes desvalorizamos a socialização.
Ao longo do processo normal do envelhecimento verifica-se, usualmente, uma perda de relações sociais, que se pode dever à perda de papéis ocupacionais, como a perda do papel laboral. No entanto, a socialização implica trabalhar ativamente um conjunto alargado de funções cerebrais, que não são possíveis de trabalhar se nos isolarmos ou se recorrermos a estímulos passivos, como a televisão, pois o cérebro está formatado biologicamente para responder e depender de interações sociais (áreas anatómicas e neurotransmissores). Citando Leonardo Da Vinci “Tal como o ferro, por falta de uso se cobre de ferrugem, e a água se estraga ou congela pelo mesmo motivo, o engenho, sem exercício, deteriora-se”.
Apesar de podermos influir no ritmo e na forma de envelhecimento, este implica, mais cedo ou mais tarde, alterações. Por um lado, uma menor velocidade de processamento, assim como alterações da memória, da atenção e do funcionamento executivo. Por outro lado, uma maior capacidade de tomada de decisão e de julgamento, pois a inumerável quantidade de experiências vividas permite melhor distinguir o que vale a pena.
Ainda que não tenham que surgir alterações patológicas, é certo que o envelhecimento torna o nosso corpo mais vulnerável, criando-se oportunidades para o desenvolvimento patologias, nomeadamente as que se relacionam com a função cerebral. Dentro das mais temidas encontra-se a Demência (1), sendo a mais conhecida, a Doença de Alzheimer, assim como doenças de Movimento, como a Doença de Parkinson. Nestes casos, quando surgem sintomas é importante realizar um diagnóstico diferencial precoce pois, apesar de ainda não existir cura, o tratamento farmacológico (2) e não farmacológico é normalmente mais eficaz quando realizado precocemente, ajudando a manter maior autonomia e qualidade de vida durante um período mais alargado.
Em suma, enquanto indivíduos podemos ter um papel ativo no ritmo e na forma do nosso envelhecimento através dos nossos hábitos de vida. Com o envelhecimento surgem naturalmente alterações que não são necessariamente patológicas, existindo, ainda assim, mais oportunidade para o desenvolvimento de diversas formas de patologia, que importa diferenciar do envelhecimento normal, para um acompanhamento adequado.
Artigo elaborado por NeuroSer – centro neurológico que desenvolve, em regime de ambulatório, a atividade de diagnóstico e terapias nas áreas da Demência (Alzheimer e outras Demências), Parkinson, Acidente Vascular Cerebral e outras Patologias Neurológicas
- Demências só são superadas pelo cancro e pelo AVC na lista de doenças que os portugueses mais receiam, de acordo com inquérito realizado em 2015, com o apoio da Direção-Geral da Saúde e a Associação Alzheimer Portugal
- Estimulação cognitiva, Fisioterapia, Terapia da Fala ou Terapia Ocupacional

