A produção de insetos para consumo humano e animal está na ordem do dia a nível europeu e também nacional.
Por exemplo, a farinha produzida a partir de larvas de escaravelho foi recentemente aprovada para consumo humano pelos Estados-membros da União Europeia, na sequência de uma recomendação do executivo comunitário, abrindo assim a porta à entrada de novas espécies e consequente legislação.
Na Europa, o consumo de insetos estava até agora autorizado apenas para alimentação de peixes e animais de estimação. Para introduzi-los na cadeia alimentar humana será necessário um parecer da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, sendo a aprovação do seu consumo da jurisdição da Comissão Europeia. No entanto, estes minúsculos seres fazem parte, de há muito, dos hábitos alimentares em países da Ásia, África e América Latina, nos quais cerca de dois mil milhões de pessoas os saboreiam nas suas refeições.
No nosso país, foi já constituída, em 2018, pela Portugal Insect, a Associação Portuguesa de Produtores e Transformadores de Insetos, cujo próprio nome indica a que se dedicará quando, e se, for aprovada legislação para o efeito, havendo informações de que está já a ser trabalhada a produção de farinha de insetos para fabrico de pão. Mesmo admitindo que este novo setor venha a ser alvo de uma rígida fiscalização sanitária e os seus produtos de uma rigorosa identificação, quem nos garante que isso será suficiente? Por outro lado, quem nos diz que não comecem a surgir apanhadores de insetos, por sua conta, para consumo próprio ou venda, insetos muitos deles combatidos com tóxicos inseticidas, apesar dos que, simpáticos e bonitos, nos são úteis na proteção de vários ecossistemas e se espere que sejam poupados a esta nova culinária?
Embora, nos tempos atuais já comamos muitos alimentos duvidosos e nocivos para a saúde, peço desculpa, mas, pelo meu lado, comer pão de farinha de escaravelho, besouros de caril, grilos à Bulhão Pato, formigas à Brás, gafanhotos de escabeche ou conservas de barata, não farão, decerto, parte da minha dieta. E não frequentarei restaurantes em que, a par de outras, tais “iguarias” sejam servidas, não vá algum destes insetos, escapados à panela, cair-me no prato (se agora se reclama quando isso acontece, se calhar, depois, até há quem goste…). E já estou a imaginar os supermercados a criarem uma secção de insetos comestíveis, frescos ou congelados e, até, prontos a comer.
Além de tudo isto, tenho as maiores dúvidas de que este novo paradigma alimentar possa vir reduzir a pegada ecológica, uma das justificações para a sua adoção, e não venha criar imponderáveis problemas de saúde, já nos bastando os que temos neste momento com o tenebroso Covid-19, atribuído à ingestão de morcegos, versão não desmentida, em cuja alimentação se contam os insetos.
José Rogeiro (escrito em luta com uma mosca intrometida)

