O Sacavém: o zumbido que acordou a cidade

Acorda, Lisboa… são horas. Mas, desta vez, o despertar não veio do sol que se espreguiça no Tejo, nem do grito dos mercadores nas ruelas. Veio de longe, das entranhas da terra e da força das águas que o homem, num gesto de audácia e soberania, decidiu domar.

Falar da Subestação de Sacavém e da chegada da linha de 150 kV não é apenas falar de postes de alta tensão ou de esquemas elétricos frios. É falar de um sonho que cheirava a cimento fresco e a óleo quente; é falar do momento em que o Rio Zêzere, vindo de Castelo do Bode, decidiu viajar centenas de quilómetros para abraçar a capital e transformá-la, de uma vez por todas, numa metrópole moderna.

O espelho de um Portugal a dois ritmos

No final dos anos 40, o estaleiro de Sacavém era o retrato fiel do nosso rosto. Imagino o cenário: de um lado, centenas de operários, corpos curvados, movendo toneladas de terra com a força bruta do braço e da pá, num ritmo secular que parecia não ter fim. Do outro, o futuro desembarcava em caixotes de madeira vindo da Suíça e da América. Máquinas da Brown Boveri e da General Electric, reluzentes como joias mecânicas, aguardavam o toque dos engenheiros de gravata e régua de cálculo.

Era o Portugal rural, de pés na lama, a apertar a mão à tecnologia de ponta. Até ali, Lisboa era uma cidade de luzes trémulas, dependente do carvão que chegava ao porto e do fumo negro da Central Tejo que sujava os telhados. Mas a Lei de Eletrificação Nacional de 1944 tinha lançado o guião: era preciso ser livre. E liberdade, naquela altura, tinha a forma de fios de cobre estendidos sobre as serras.

O rigor do laboratório central

Antes de a corrente fluir, houve o silêncio do Laboratório Central. Imagino os técnicos de bata branca, como sentinelas do invisível, operando num limite de precisão que hoje nos parece poesia metrológica. Portugal não se limitava a importar o progresso; nós vigiávamo-nos o seu pulso.

Ali, o rigor era lei. Os isoladores de porcelana sofriam o seu “batismo de fogo” sob descargas que rasgavam o ar como relâmpagos prisioneiros, testando a alma da rede contra o salitre. Mas o segredo estava na calibração meticulosa de instrumentos de elite, onde o erro não tinha lugar. Em silêncio, o analisador de redes projetava o futuro, enquanto a química dos óleos isolantes era lida como quem decifra o destino, detetando “pontos quentes” e fugas com uma precisão cirúrgica. Sistemas de proteção, atentos e invisíveis, guardavam o fluxo, garantindo que o corpo elétrico nunca gritasse de dor. Era a ciência preditiva aplicada à vida.

O zumbido: o som de um país que nasce

E chegou o dia. 21 de janeiro de 1951. As mais altas patentes do Estado, o protocolo rígido, a expectativa que se cortava com uma faca. Mas o momento verdadeiro não foi o do discurso. Foi o do zumbido.

Dizem os relatos que, após o silêncio sagrado da ligação, ouviu-se o baixo e potente vibrar dos transformadores a entrar em carga. Não era ruído; era o som de Lisboa a acordar para o mundo. O Zêzere estava ali, finalmente. Cento e cinquenta mil volts de soberania que permitiam às fábricas crescer sem medo e aos elétricos serpentearem as colinas sem a fraqueza das pernas de outrora. Foi o fim da “doença da incerteza” energética.

A mística que atravessa o tempo

Dessa obra nasceu a “Mística da CNE”. Um espírito de corpo inigualável, onde o engenheiro, o técnico e o operário partilhavam o mesmo orgulho de quem sabe que está a construir algo que os vai sobreviver. Aquela infraestrutura serviu o país durante décadas com uma fiabilidade que hoje nos comove.

Olho para o computador onde escrevo estas linhas e sorrio. Hoje, o desafio não é o salitre nos isoladores, mas a informação que se perde entre biliões de dados. Mas o sentimento, esse, é o mesmo que nos move na AREP. O rigor que usávamos para monitorizar a rede de 150 kV é o mesmo que aplicamos agora para amparar um associado, para gerir uma quota ou para garantir que a energia da solidariedade não sofre um curto-circuito.

Porque, no fundo, somos feitos da mesma matéria que aqueles pioneiros: de sonhos, de serviço público e daquela paixão quase elétrica que nos obriga a não acordar nunca deste sonho de construir um mundo mais iluminado. Até ao próximo sonho, até à próxima ligação.

Arnaldo Cordeiro

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