O tempo livre é um prémio e deve ser bem vivido

Com uma vasta experiência na preparação para esta fase da vida, Susana Schmitz acompanhou inúmeros profissionais na transição para um novo ciclo, experiência que mantém como referência no seu percurso. Ao longo do seu trabalho, dinamizou também ações de formação que contaram com a participação de colaboradores da EDP, no ativo, pré-reformados e reformados. PhD em Psicologia Social e Organizacional pelo ISCTE-IUL, alia o rigor científico a uma abordagem prática e humanizada.

O que é, para si, “ter tempo para ter tempo”?

A maior parte de nós tem uma vida agitada, com muitos compromissos e afazeres. Alguns desses compromissos são opções; outros – talvez a maioria – não o são. “Ter tempo para ter tempo” é, para mim, escolher de forma consciente como ocupa (ou não) o seu tempo. Ou seja, é ter tempo para refletir sobre aquilo que se quer fazer e sobre o que não se quer fazer.

O que mais surpreende as pessoas quando chegam à reforma?

Apesar de a reforma estar muito associada à ideia de férias, ela é um período de grandes mudanças, que obrigam a lidar com novos desafios, como as alterações no quotidiano familiar e social e a utilização do tempo livre de forma construtiva. Não é incomum que as pessoas cheguem à reforma sem se terem preparado para esta fase e, após terem feito algumas viagens e organizado as fotos e os livros que estavam por organizar, passados alguns meses, o vazio acabe por se instalar.

Qual é o erro mais comum na forma como se usa o tempo nesta fase?

Podemos dizer que há dois erros que podem ocorrer na forma como se usa o tempo nesta fase. O primeiro é acreditar que o tempo será preenchido de forma “orgânica”, com as atividades rotineiras que já faziam parte da vida antes da reforma. Ora, dado que, durante uma média de 40 anos, ocupámos cerca de 8 horas do nosso dia a trabalhar, é muito pouco provável que essa “ocupação orgânica” do tempo seja suficiente, não só no que se refere à quantidade de tempo ocupado, mas principalmente à qualidade desse tempo. Ou seja, o erro aqui é não ocupar o tempo de forma significativa. Um outro erro é exatamente o oposto: não alterar, em nada, o ritmo de vida que se tinha antes da reforma. Há pessoas que se envolvem em projetos e atividades tão ou mais absorventes do que o trabalho que tinham e vão, assim, adiando o confronto com a transição para uma fase diferente da vida – que, como qualquer outra fase, merece ser vivida tendo em conta as suas características próprias.

Como se aprende a abrandar sem sentir culpa?

É compreensível que algumas pessoas se sintam culpadas ao abrandar o ritmo com a chegada da reforma. Vivemos numa sociedade na qual o trabalho é um elemento central em torno do qual organizamos a nossa vida, mesmo antes de começarmos a trabalhar, com o investimento na aprendizagem de uma profissão. Depois disso, decisões como onde moramos, se e quando temos filhos, entre outras, são tomadas tendo como referência questões profissionais. Existe ainda um valor social muito elevado em torno da ideia de ser útil e produtivo/a. Com a chegada da reforma, é importante ganhar perspetiva sobre o papel central que o trabalho desempenhou na organização da vida e começar a descobrir significado noutras esferas, mantendo-se ativo através de outras atividades. Não nos devemos esquecer de que este também é um momento para dar espaço a sonhos antigos e a novas ideias.

De qualquer forma, é importante considerar que o tempo livre é um prémio, uma conquista, e deve ser usufruído da melhor forma possível – mesmo que algumas pessoas à sua volta ainda não estejam nesta fase; eventualmente, também lá chegarão.

O que ajuda a passar de uma vida sempre a correr para uma vida com mais escolha?

A preparação para a reforma tem uma vertente financeira, que é fundamental, mas não é a única que deve ser considerada. Uma boa transição requer que paremos e nos perguntemos: Quem somos hoje? Quais são os nossos interesses e motivações? Quais são as nossas competências e habilidades? Quais são as nossas oportunidades e limitações? Responder a estas questões é essencial para que cada pessoa desenhe o seu próprio projeto de vida para a reforma – um projeto que, ainda que concretizado com a participação de outras pessoas, deve ser único e intransmissível. O desenvolvimento regular de uma atividade que seja, simultaneamente, gratificante para a própria pessoa e útil para os outros e para a sociedade constitui uma das principais formas de preservação da saúde mental durante a reforma. Isso poderá acontecer, por exemplo, através de atividades de voluntariado ou do desenvolvimento de novos projetos profissionais (remunerados e/ou não remunerados). Outras atividades, como aprender coisas novas, passar mais tempo com pessoas importantes, fazer mais daquilo de que se gosta, cuidar da saúde e do bem-estar ou dar apoio à família, são igualmente muito importantes nesta fase.

Como encontrar equilíbrio entre rotinas, descanso e prazer?

É provável que, nesta fase, se tenha mais tempo livre. Apesar de ser algo positivo, o tempo livre pode trazer algumas armadilhas se não for bem gerido. Deixo algumas sugestões para quem está nesta fase:

  1. As suas atividades são compromissos. As atividades que realiza durante a reforma (ir ao ginásio, caminhar, fazer voluntariado, ter encontros periódicos com amigos) devem ser consideradas compromissos com a sua saúde e bem-estar e, portanto, de grande valor.
  2. Cuidado com a procrastinação. Quando temos muito tempo livre, é comum deixar para depois o que temos para fazer. É importante não adiar o que precisa de ser feito e manter a disciplina.
  3. Saiba lidar com o tédio. É natural que, em alguns momentos, surja o tédio. Nessas situações, seja proativo/a e procure atividades que lhe deem prazer: contactar amigos, experimentar novas atividades, variar os ambientes que frequenta ou fazer algo que sempre desejou e para o qual antes não tinha tempo.

Que hábitos vale a pena manter da vida profissional? E quais é melhor deixar para trás?

Um dos hábitos da vida profissional que vale a pena manter são as rotinas diárias. Durante a reforma, é importante que, na maioria dos dias e respeitando preferências e ritmos individuais, se mantenham horários regulares para dormir, acordar e fazer as refeições. A deixar para trás estão as agendas sobrecarregadas, as refeições feitas à pressa e a falta de tempo para cuidar da saúde e estar com as pessoas de quem gostamos.

Como dizer “não” e proteger tempo para si sem criar conflitos com a família?

Quando as pessoas entram na fase da reforma, é comum que familiares ou pessoas próximas solicitem ajuda nos afazeres diários, como auxiliar na rotina com os netos, fazer recados ou ir ao supermercado. Certamente haverá prazer em algumas dessas atividades, mas é importante que sejam sempre acordadas consigo. Afinal, mesmo estando na reforma e tendo mais tempo disponível, continua a ser dono/a do seu tempo e deverá decidir a forma como o quer usufruir.

Que sinais mostram que uma pessoa está bem-adaptada à reforma?

Um sinal de boa adaptação é a capacidade de redefinir a própria identidade para além do trabalho que tinha. Ou seja, a pessoa considera-se alguém com valor, embora já não esteja a trabalhar, e desenvolveu interesses que não dependem da sua antiga profissão. É importante ter um sentido de propósito, envolvendo-se em hobbies, voluntariado ou novos projetos, bem como estabelecer objetivos pessoais, como viagens, aprendizagem ou cuidados com a saúde. Além disso, ajustar o estilo de vida à nova realidade financeira, manter uma rotina estruturada (sono e alimentação), ter uma vida social ativa e sentir-se tranquilo/a com a nova fase são também sinais de uma boa adaptação.

Nas formações que fez no universo EDP, que preocupações ouviu mais vezes sobre esta fase?

Recordo-me de uma frase de uma pessoa que ocupava uma posição de liderança na organização: “É muito estranha a sensação de acordarmos e pensarmos que ninguém está à espera de uma decisão nossa para poder avançar com o seu dia. “Outras pessoas, especialmente homens, manifestavam alguma apreensão quanto à intensificação do convívio doméstico – uma preocupação compreensível, dado que, muitas vezes, o espaço doméstico tem sido culturalmente mais familiar para as mulheres (embora, nas gerações mais novas, esta questão tenda a diluir-se). Noutros casos, a preocupação prendia-se com o facto de o/a cônjuge não entrar na reforma na mesma altura.

Se pudesse dar um conselho simples para viver esta fase com mais calma e mais escolhas, qual seria?

Diversos estudos demonstram que conexões sociais de qualidade são um fator-chave para a longevidade. Por isso, mantenha-se ligado/a: retome antigos contactos e crie laços. Não tenha pressa, mas não perca tempo. Aproveite para fazer aquilo de que gosta e que o/a faz sentir bem. Os anos de vida adicionais que os avanços científicos, tecnológicos e sociais nos trouxeram são algo a celebrar e a usufruir plenamente por cada um/a de nós. Aproveite esta oportunidade!

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