“Entrei no setor elétrico com três ou quatro anos”

Edgar Fritz Dolgner pertence a uma geração rara: cresceu nas barragens em construção (Picote, Miranda e Bemposta), entre viagens longas de comboio a vapor e estudou até ao 5º ano do liceu no Colégio de S. José. em Miranda do Douro. Trabalhou desde a adolescência ao lado de engenheiros e operários e construiu uma carreira marcada por décadas dedicadas à engenharia hidroelétrica. Hoje, às portas dos 80 anos, recorda um percurso moldado pela exigência dos tempos, pela força das circunstâncias e por uma persistência serena que o levou mais longe do que alguma vez imaginou quando, em criança, passava horas sentado num caixote a dobrar fios elétricos para ajudar o pai.

A história da família Dolgner começa muito antes dele. O avô, engenheiro alemão da Siemens, chegou a Portugal em 1909 para montar o gerador de reserva do Hotel de Vidago. Acabou por casar com uma portuguesa, ser retido no “Depósito de Alemães” nos Açores, ilha Terceira, durante a Primeira Guerra Mundial e regressar ao continente já com filhos pequenos. Reinventou-se várias vezes: montou um hotel em Oeiras, trabalhou na CUF e mais tarde na Empresa Hidroelétrica da Serra da Estrela. Foi aí, em Seia, que nasceu Edgar, o primeiro de sete irmãos que vinham ao mundo sempre que uma nova obra exigia mudança de terra.

Entre barragens e comunidades do Douro, Edgar cresceu num ambiente de obra que lhe despertou cedo a curiosidade, a técnica e a capacidade de se adaptar.

O pai, eletricista experiente, trabalhava de empreitada em empreitada. A família passou anos no AVE, no Porto, no Zêzere e no Douro Internacional no interior profundo onde começavam novas barragens. A infância de Edgar foi feita desse nomadismo operário: “Eu entrei no setor elétrico com três ou quatro anos”, diz com humor. Lembra-se das casas de madeira nos bairros provisórios, das refeições simples com toalhas de pano, do pai a trabalhar ao fim de semana e dele próprio a ajudar, ainda pequeno, nas pequenas tarefas de oficina. A exigência era grande, mas o ambiente criava laços fortes. “Fui um privilegiado. As pessoas gostavam de nós, não sei bem porquê, mas ajudaram-me muito.”

Quando a família se mudou para Picote, Edgar tinha 11 anos. A obra parecia uma cidade inteira erguida no meio do isolamento: casas pré-fabricadas, escola, refeitórios, igreja, alojamentos para engenheiros, clube de pessoal, cinema e uma pousada onde ficavam quadros superiores e visitantes oficiais. Tudo isto numa época em que Miranda do Douro recebia os jornais quase à meia-noite e as estradas de acesso a Bragança eram de terra batida. “As pessoas viviam de portas abertas. Era uma comunidade inteira, criada ali, só porque o rio assim o pedia.”

O hospital construído pela empresa tornou-se referência regional. Com médicos residentes e equipamento raro para o interior da época, fazia cirurgias de urgência e atendia não só trabalhadores como famílias inteiras. Edgar guardou a imagem vívida do dia em que um colaborador, desenhador da empresa, sofreu uma hemorragia grave: “Chamaram um cirurgião do Porto, fizeram transfusões ali mesmo. Lembro-me de ver o meu pai na fila para dar sangue.”

A verdade é que, ao ouvir Edgar falar, percebe-se que a engenharia nunca foi apenas um ofício — foi uma forma de estar no mundo. Desde cedo, observava com atenção o trabalho dos técnicos e operários que o rodeavam, fascinando-se com a precisão, a disciplina e o cuidado que cada tarefa exigia. A prática diária nas oficinas, o contacto direto com ferramentas e máquinas e o exemplo dos mais experientes despertaram-lhe a curiosidade e incutiram-lhe um sentido de método que o acompanharia pela vida fora. Para ele, as obras foram mais do que o local onde cresceu: foram uma escola contínua.

A vida comunitária das barragens é outro capítulo que guarda com especial carinho. As famílias partilhavam ferramentas, refeições e preocupações. As crianças brincavam entre cabos, barracões e taludes, aprendendo cedo a respeitar o perigo. “Quando se vive no fim do mundo, as pessoas aproximam-se naturalmente”, diz. Criava-se uma vida paralela, feita de entreajuda e rotinas simples que hoje olha com ternura.

A sua formação fez-se no terreno: estudou enquanto trabalhava, superou dificuldades familiares e, na Aguieira, assumiu responsabilidades que marcaram a carreira.

A adolescência trouxe responsabilidades precoces. Sem meios para estudar num colégio interno, Edgar fazia longas viagens entre Picote, Miranda e Bragança. Entre comboios lentos, autocarros da empresa e noites no Colégio São José, em Bragança, onde ficava alojado durante os exames do 2º e 5º anos do liceu, concluía o percurso possível. Quando pediu ao pai que o deixasse trabalhar, entrou para a oficina da obra, onde aprendeu bobinagem e desenho técnico. Ali, o engenheiro Fernando Cardoso Lima reconheceu o seu talento e convidou-o para integrar a equipa técnica da Hidro Eléctrica do Douro (HED), onde começou no dia 24 de maio de 1963.

Em fevereiro de 1964 vem para o Porto onde a empresa o apoiou nos seus estudos no Instituto Industrial do Porto. “Comprometi-me a nunca gozar férias. Trabalhava nos intervalos das aulas e nas férias escolares.” O esforço valeu a pena: conseguiu boas notas, bolsas de estudo e abriu caminho para a futura licenciatura, concluída enquanto trabalhava e sustentava a família após a morte prematura do pai. Em simultâneo, casou, foi colocado na Régua, onde deu aulas na escola técnica e alimentou, dia após dia, a determinação de construir um futuro sólido.

A Aguieira marcou-o profundamente. Acompanhou a obra desde o “primeiro parafuso” até ao último ensaio dos grupos geradores e tornou-se o primeiro chefe da central. Viveu episódios intensos: festas improvisadas entre trabalhadores, almoços de Natal realizados no átrio da central, com a árvore de Natal montada por ele — muitas vezes pendurado num bidão içado pela ponte rolante — e a camaradagem rara que unia equipas inteiras.

Mas nada o marcou como a madrugada gelada em que a central ficou inundada. Uma peça que integrava a roda de turbina soltou-se e, ao parar o grupo, a água regressou pelo veio da turbina. “Andámos descalços e quase sem roupa a abrir válvulas manualmente por forma a permitir o escoamento da água. Foi a única vez em que senti medo.” A intervenção rápida salvou a central.

Durante os anos seguintes, acompanhou a modernização da engenharia hidroelétrica: novos sistemas, maior precisão, maior segurança. Cada mudança era um desafio e um sinal da evolução do país. Sem dar por isso, tornou-se uma referência. Colegas procuravam-no para aconselhamento, equipas jovens escutavam-lhe as explicações, e a liderança natural levava-o a orientar decisões críticas.

Hoje, Edgar partilha o que aprendeu ao longo de décadas ligadas à energia. Entre família e aulas de bricolage, mantém a tranquilidade de quem fez o seu caminho.

Depois da Aguieira, vieram novos desafios: coordenação de grupos de centrais, reestruturações profundas e a passagem para o Porto com carreira consolidada. Reformou-se aos 57 anos e 42 de serviço, com a serenidade de quem sente missão cumprida.

Hoje, fala da família com orgulho. Tem duas filhas, uma engenheira civil e outra engenheira química, e um filho “de coração”, engenheiro eletrotécnico. Os cinco netos são motivo de alegria constante. “Estão bem encaminhados. Fiz o meu papel.”

Aos 79 anos, dá aulas de “Bricolage” e “Cidadania e Mundo Actual” numa universidade sénior, onde repara pequenos eletrodomésticos com a mesma naturalidade com que, décadas antes, desmontava turbinas. Observa o passado com serenidade, reconhecendo a dureza de alguns momentos e a generosidade das pessoas que encontrou pelo caminho.

E quando recorda o caminho que fez, desde o miúdo que dobrava fios até ao chefe de central que salvou a Central da Aguieira numa madrugada gelada, percebe-se que a eletricidade nunca o deixou e que uma parte dele continua acesa ali.

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