A albufeira de Vilarinho das Furnas, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, esconde a história de uma aldeia submersa, inaugurada em 1972. O que à primeira vista parece um espelho de água é, na verdade, um túmulo líquido que apagou séculos de cultura comunitária. A sua história é um exemplo marcante da colisão entre o progresso, representado pela necessidade de energia hidroelétrica, e a tradição. No fundo do vale jazem não só ruínas, mas memórias e um raro modelo social.
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Antes de ser submersa, Vilarinho da Furna era uma pequena aldeia isolada, abraçada pelas montanhas do Gerês, consideradas um dos últimos exemplos vivos da organização comunitária na Europa. A comunidade vivia de forma extraordinária e isolada, baseada num sistema de poder local assente nas assembleias onde os chefes de família se reuniam para decidir coletivamente sobre todos os aspetos da vida, num sistema de convivência, num sistema de participação direta. Este modelo social funcional, refinado ao longo de gerações, incomodava o regime da época, “era malcrista”.
O líder eleito a cada seis meses era o Zelador, cuja função era garantir o cumprimento das regras aprovadas. Para reuir a população, usava um corno de boi ou um búzio, um chamamento arcaico e simbólico que ecoava pelo vale, representando o elo entre a comunidade e a terra. Foi precisamente este elo que acabaria por ser quebrado.
O Martelo da Engenharia: Quando o Mapa Decidiu o Destino do Vale
O destino de Vilarinho da Furna foi selado em 1966, com a aprovação do projeto de transformação do vale numa albufeira artificial devido à crescente necessidade de energia. As obras iniciaram-se em 1968. A barragem é do tipo arco, com 94 metros de coroamento. A albufeira resultante cobriu 346 hectares, submergindo casas, caminhos romanos e levadas de regadio. Apesar da resistência popular, o Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, foi claro: “se o povo diz que ‘só fora da água’ os obrigaria a retirada, os habitantes, era inevitável”.
Até ao momento do enchimento final, a aldeia chamava-se Vilarinho da Furna (singular), mas a barragem foi registada como Vilarinho das Furnas (plural). Esta alteração, apagando os antigos moradores, simboliza a desatenção institucional e o pouco cuidado com a memória do lugar.
No passado, fruto da tomada de decisão à distância, as obras foram lançadas sem o devido cuidado com o impacto que poderiam causar na vida das comunidades locais. As decisões eram frequentemente tomadas de forma distante, sem escutar quem realmente vivia e sentia as consequências no terreno. Hoje, a realidade é diferente. Há uma preocupação em envolver as populações desde o primeiro instante, ouvindo as suas necessidades, expectativas e receios. Este diálogo, aliado a análises rigorosas dos impactes previsíveis e à apresentação de soluções que visem minimizar os efeitos negativos, permite que as obras avancem de forma mais responsável e equilibrada, construindo soluções que não só respeitam, mas também valorizam os locais e as pessoas que neles habitam.

