Salvador Peres
Vi, em 1979, o filme de Michael Cimino, “The Deer Hunter”, “O Caçador”, na versão portuguesa, estreado em Lisboa no dia 26 de Outubro desse ano.
Na Pensilvânia, durante o final da década de 1960, um grupo de amigos, Michael (Robert de Niro), Steven (John Savage) e Nick (Christopher Walken), Stanley (John Cazale), John (George Dzundza) e Axel (Chuck Aspegren) cumprem dois rituais de passagem: o casamento de Steven e o ingresso de três deles no serviço militar.
A festa é rija e os amigos ficam embriagados. Perto do final da festa, Nick, um jovem calmo e introspectivo, pede Linda (Meryl Streep) em casamento e esta aceita. Michael, que nutre fortes sentimentos amorosos por Linda, cala-se, resignado, para não ensombrar o noivado entre aqueles dois amigos. A frustração de Michael, porém, transforma-se em euforia e corre nu pela rua até ser detido por Nick, que acaba falando com ele sobre a iminente ida para o Vietname e lhe pede que não o deixe lá se algo de mal lhe acontecer.
Na manhã seguinte, todos, à excepção de Steven, sobem à montanha para caçar veados. Quando voltam para casa, caem numa imensa melancolia. John toca um nocturno de Chopin e todos se entreolham sabendo que as suas vidas vão mudar para sempre após o alistamento que ocorrerá no dia seguinte.
Depois vêm as cenas de guerra, muito violentas, que não poupam os três amigos. São feitos prisioneiros e forçados a jogar à roleta russa, disparando uma pistola com uma bala no tambor na cabeça uns dos outros.
O drama vinca a vida destes amigos: Steven volta para casa com as pernas amputadas e Nick permanece em Saigão viciado no jogo da roleta russa, acabando por morrer com uma bala na cabeça.
Michael, conforme havia prometido a Nick na noite do seu casamento, trá-lo de volta para os Estados Unidos, onde é realizado o funeral.
O filme é um extraordinário testemunho do drama vivido pela juventude norte-americana durante a trágica Guerra do Vietname.
Sobrevoando o desenrolar deste épico do cinema, fica nos ouvidos a música-tema do filme, “Cavatina”, de Stanley Myers. Tema que ficou para a história, sobretudo numa primorosa versão para guitarra clássica executada por John Williams.
Esta música nunca mais me saiu da cabeça. Anos mais tarde, adquiri a pauta para tentar executar o tema. Vezes sem conta comecei; vezes sem conta desisti. O grau de dificuldade é imenso, pois pede uma execução técnica superior, e achei que jamais conseguiria tocar o tema. Mas este ano, mercê do trabalho desenvolvido à volta dos temas instrumentais que fui compondo para os filmes do Alberto Pereira, decidi voltar de novo ao tema da “Cavatina”. O extenso trabalho de composição ajudou a melhorar a técnica. E uma pequena luz acendeu-se ao fundo do túnel quando, pela primeira vez, depois de muitas horas de estudo, consegui tocar o tema do princípio ao fim. Não vale a pena pensar, nem em sonhos, na mais leve aproximação que seja à interpretação de John Williams, que está para lá do que alguma vez serei capaz de fazer. Mas, quem sabe, um destes dias me atreva a tocar, na intimidade de amigos, a sublime “Cavatina” de Stanley Myers.

